SUMÁRIO DAS ARMADAS
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O documento que se segue,
intitulado Sumário das Armadas que se fizeram e das guerras que se deram na
conquista do Rio Paraíba é cópia fiel ipsis litera do original que se acha
arquivado na Torre do Tombo, em Portugal. Escrito pelo padre
Jesuita Christóvão de Ganvia,Visitador da Cia. de Jesus de toda a Provincia
do Brasil, a partir de 1.583, até 1.587, narra com infinitos pormenores a
saga dos primeiros colonos portugueses em suas guerras com índios -
principalmente os Potiguares - e Franceses para o povoamento da Paraíba a
partir da cidade de N. S. das Neves, atual João Pessoa. Pelo que se depreende
do texto, o padre Ganvia acompanhou a maioria das expedições e delas
participou ativamente. Não sendo um bom narrador como Caminha, às vezes se
perde no texto e não consegue manter uma ortografia correta, escrevendo a
mesma palavra de várias maneiras, o que demonstra também não ser ele bem
versado na língua portuguesa. A falta ou a pouca pontuação também são
dificuldades à sua compreensão. Pode-se atenuar as falhas do escriba se se
considerar que à época do seu relato o português era ainda uma língua
relativamente jovem e com poucos recursos a oferecer aos seus usuários.
Registre-se que a primeira edição dos Lusíadas aparecera há apenas 11 anos
(1.572) que foi quando a língua começou a ter uma identidade própria,
desligando-se principalmente do latim e do espanhol. É possivel que também
tenhamos cometido alguma falha, pois ao trabalho hercúleo de transcrever
copiando um manuscrito tão antigo, com 70 páginas já bem castigadas pelo
tempo, não poderia a Revista MUNICÍPIOS EM DESTAQUE (elaboradora do trabalho)
ter a pretensão do perfeito. A transcrição que ora apresentamos foi calcada
na preocupação de ser absolutamente fiel ao original que consultamos, sem o
rigor científico de um trabalho de paleografia. Deste modo, foram respeitadas
todas as falhas e imperfeições do texto e a sua forma arcaicista de se
apresentar. Alguns trechos desse Sumário aparecem eventualmente aqui e ali,
com sua autoria atribuida ora a um, ora a outro escritor, mas acreditamos que
a sua íntegra nunca foi publicada nem sua paternidade real identificada e, se
agora o fazemos, é para colocar ao alcance dos estudiosos e amadores do
assunto um belo documento histórico que transporta para as letras as
primeiras páginas dos feitos heróicos dos sempre heróis paraibanos. a Revista
MUNICÍPIOS EM DESTAQUE sente-se orgulhosa por dar mais esta contribuição à
tão maltratada memória brasileira que com certeza ainda há de ser resgatada. |
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Os Editores
Sumario das
Armadas que si fizerão e guerras que se derão na conquista do Rio Parahiba
escripta e feito por mandado do muito reverendo Padre em Christo o padre
Cristóvão de Ganvia visitador da Companhia de Jesus de toda a Província do
Brasil. Antes de entrar na relação das guerras e armadas que os reis deste
reino mandarão dar e manter contra o gentio Pitiguar, senhor de mais de quatro
centas léguas por costa deste Rio do Parahiba athe e do Maranhão que
começarão no tempo de Luís de Brito d'Almeida Governador-Geral deste stado do
Brasil e se acabarão no tempo do licenciado Martim Leitão Ouvidor-Geral do
mesmo estado e que por mandado de El Rey Dom Philippe Nosso Senhor as
conquistou e povoou o Rio Parahiba me pareceu fazer uha breve descripção
delle e do estado em que estavão as Capitanias do Pernambuco e Tamaracá
quando o doutor Martim Leitano entrou nellas para mais facilmente no decurso
desta história se entenderem muitas cousas a qual he a seguinte |
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Capítulo Primeiro O Rio Parahiba que nas cartas
de marcar se chama S. Domingos está em seis graós da banda do Sul corre per
uma água que os marcantes chamão Nornoroeste Susueste a barra a entrada corre
pelo de Nordeste Susudoeste athe a ponta do Cabedelo que he já dentro. Tem de
baixa mar no mais baixo em hum banco que faz de area quatro braças e dali
para dentro pelo Rio asima tem seis e sete. A boca da barra que o Rio faz
terá de largo ua legoa e o canal que vai pelo meio que he o que chamamos
barra tem um quarto de legoa e todo mais de uha parte outra he muito
apanelado o fundo he de area muito limpo e sem nenhua pedra e asim he muito
maior porto e capaz de maiores embarcações que o de Pernambuco e Tamaracá,
dos quais dista vinte e duas legoas do de Pernambuco, e de vinte do de
Tamaracá por costa para a banda do Norte e os arrecifes que correm ao longo
de toda estas quebrão ali mais. Pelo Rio acima uha lagoa da banda do Norte
tem uha ilha fermosa de arvoredo de uha legoa de comprido e um terço de largo
defronte da qual está o surgidouro o porto das Náos capaz de grande
quantidade dellas e abrigado de todos os ventos. Da parte do Sul, faz hum
fermoso canal pello qual acima duas legoas podem ir navios de cem tonéis e
outras três mais asima grandes caravelões que he athe onde chega aspereza da
maré. Da parte do Norte vai outro braço que desvia de a Ilha da terra firme e
nella defronte da ponta da Ilha está parte desima onde o Rio se comunica a
devedir e fazer a Ilha se fez o primeiro forte por ordem do General Diogo
Paes de Valdes este Rio que torna depois sete ou oito legoas ao Sul tem uma
varzea de mais de quatorze de comprido e de largo tem duas mil braças e seis
centas no mais estreito toda retalhada de esteiros e rios caudaes de agua
doce que podem dar mais de quarenta engenhos de asucar por toda a terra sem
singular para a cana com o serviço do mar e de menos fábrica do Brasil por
ser Rio morto e pelo menos inverno todo navegável e deverão mais de sete
legoas por caravelões que entrão no Rio que nelle se metem que são muitos e
proveitosos por abundarem de muitos pescados e mariscos com outras muitas
terras para canas, mantimentos, pastos e lenha que só as dos mangues as fazem
infinitas. Pois as outras varzeas que ha entre Pernambuco e a Parahiba e
fazem ao longo dos Rios que entre estas duas Capitanias mais pegadas ao
Parahiba entrão no mar e não prometem menos proveito antes muito grande, falo
por varzeas por que esta he somente a boa terra do Brasil que os outeiros ou
altos não dão cana, ao menos nessas Capitanias do Norte, enquanto nelles ha
certa terra bem boa de mantimentos maz não cana que somente se dá nas varzeas
que he a terra baixa ao longo dos Rios ou de grandes alagadios que no Brasil
ha muito principalmente perto do mar onde os ha grandes e as matas das
arvores são muito maiores e muito mais altas e grapas que no certão onde nem
ha Rios nem lagoas senão de poças que com muita dificuldade se acha. Enfim
todo o sertão do Brazil he muito steril e de pouco mato e terras
desaventuradas que com trabalho da a mandioca que os negros plantão como
bacellos e em dez doze meses se faz tão grosa como grandes nabos maz com
raizes compridas com muitas pernas e tenras que no cada dão muita farinha que
elles e os brancos se sustentão e depois do trigo he o melhor mantimento que
se sabe principalmente deitada de molho faz singular farinha para se comer em
fresca que se parece com o nosso cuzcuz, fazem também outros beijuís que são
redondos como manguaes ou compridos como querem pouco mais groço que hostias
he muito bom comer porque toma o gosto ou sabor natural daquilo com que o
comemos, fazem mais outra farinha destas raízes a que também chamam mandioca
mais cozida para darem a muitos......com que vem ao reino e hirão a India
desta chamarão farinha de guerra porque nellas se servem os negros desta e
como no Brasil um negro tem farinhas e redes arcos frechas logo se tem por
ricos. O cabedal que todos os brasis ordinariamente levão a guerra não he outro
senão mulher que lhe leva a rede e alguma pouca de farinha para os primeiros
dias que depois os......, ratos, bichos e mais immundicia apaga e os
susttenta que no Brasil nada disso he venenoso que he ua das maravilhas deles
por a mesma verão as guerras que lhes fazemos aquelle que leva mais negros
para lhe caçarem ou pescarem são mais regalados e vão milhor providos. São
geralmente todos os brazis muito ciosos, ainda que tendo muitas mulheres,
dez, vinte e quantas cada hum pode sustentar e os principais so niço amostrão
serem cabeças na guerra que regularmente são os mais valentes que dos siumes
que...uns dos outros tem por respeito dos quaes dão muito facil credito, a
qualquer sospeita que lhe indicio procederão e procedem sempre todas as
divisoes, guerras e diferenças que todo esse gentio do Brasil entre si tem e
por aqui lhe urdem os portugueses muitas brigas com que se desavem uhas
Nações com outras com o qual ardiu os entramos e desbaratamos que todos
juntos nunca ninguém poderá com elles nem os dumará. Este ardil nos não val
com os Pitiguares que sendo o maior e mais guerreiro gentio do Brazil que
ocupão do Parahiba athe o Maranhão que são seis sentas legoas estão unidos e
conformes estão huns com os outros que de indústria apontarão entre si
entregavam-se a nós os delinquentes huns aos outros e castigavam-nos sem
...nem si desavirem nunca por isto e assim o dizemos sempre nas pulhas aos
brancos quando nas guerras vem a fala; outras cousas maravilhosas tratarei
aqui de gentio do Brasil já que me alarguei tanto fora do primitivo entento,
como lhes todos são muito ciosos são também muito amigos das mulheres e mui
brandos para ellas e gente que por seus respeitos servem e obedecem aos
sogros como a pais mas quando ellas parem os maridos se fingem doentes e se
deitão de mimosos nas redes e ali são melhor servidos dous ou três dias e
visitados. Ellas em parindo se vão lavar com as crianças na fonte. Tem mais
outra propriedade não...herdarem do estado da inocência que nelles esta tão
corrupta e danada que contra toda a ordem da natureza por mera sensualidade
folgão de andarem nus sem nunhuma cobertura athe em suas vergonhas couza que
parece os próprios animais brutos estranhos. São menos cobiçosos sendo em
extremo mais apetitosos que todas as outras nações do mundo e por isso todo o
que vêem nos brancos desejão esperão e querem que lhes demo a esse lho dando
o dão logo aos outros e com qualquer cascavel lhe hão o vestido porque destes
morrerão. He gente que sempre se tem vagar corre como brutos e niso em suas
sugidades ou desonestidades entendemos somente como não andão em guerras,
porque se dão pouco ao travalho e naturalmente são folgazões como o são todas
as outras nações fora da nossa Europa. Ajuda muito a iso a fertilidade
da terra em produzir este mantimento que chamamo mandioca que he o pão de
todo o Brasil porque cada pessoa com a planta de um só dia faz mantimento que
lhe abasta todo o anno maz varião as folhas por não cansarem a terra e com
serem tão comilhões tendem mais a fome que todas as nações do mundo que
andarão dous dias inteiros sem comer nem beber. São mui afeiçoados e
naturalmente amigos de quem o he seu maz mui vários e mudáveis em extremo e
por poucas couzas assombrão e perdem tudo e se alevantão e assim em nada tem
constância nem firmeza. São muito falços inclinados a enganos e aleivos e he
tão próprio e natural iso do clima e terra do Brasil que logo se pega e tem
já pegado a quase todos os brancos naturais do Brasil, antes a todos que asim
desmente que lhe a principio lançarão do Limoeiro de Lisboa e das outras
cadeias do reino peiorou ainda mais esta natureza a que já conhece roim e
asim se deve fazer pouco fundamento dos ditos do Brazil como não fazem de
peçoas mui católicas nas virtudes. E tornando pois as varzeas que dizia ser a
milhor terra porque nellas ha mais vella que asim chamão a terra forte e boa
e na que he tão dura a roça ou planta de cana trinta e quarenta anos sem
cansar nem de replantar que he muito sustentaremse estas varzeas como se
alagarem todos os annos porque ao longo do mar terra baixa e muito retalhada
de Rios e esteios: toda aterra do Brasil não tem mais que só dous athe três
palmos de boa terra com a nativa por sima que logo dali para baixo he roim
tem...alta sem prestar para nada e por esta causa todas as arvores no Brasil
tem as raizes a felor da terra e com qualquer vento se arrancão e deve que
não tem as raizes lançadas para baixo. Com isso, e por não haver na própria
lingua dos brasis três letras principais que temos he a saber F.L.R., cuja
falta nos mostrão faltarem-lhe a elles três fundamentos em que o gênero
humano se sustenta e norte porque de governo que são Fé, Lei e Rey, nos quais
o autor da natureza avisa a não fazermos fundamento de cousa algua do Brasil
porque rialmente estas três couzas entre o gentio e não deixem estenda aos
brancos...mas o Brasil que de todos porque nada adorão nem tem reys nem
califas, como as outras nações senão aquelles a que chamão cabeças para suas
guerras e fora delas nas Aldeas onde vivem tão pouco por elles nem os estimão
nem guardão fé nem entre si nem com os brancos nem verdade mas que enquanto
se lhes antolha. São mui dados a feitiços e o feiticeiro que ha |
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Da ida do douptor Fernão da
Silva a Parahiba e do Governador Luís de Brito de Almeida Capítulo 2º El Rey Dom Sebastião que Deus
tem informado de todas essas cousas receoso de os Franceses se situarem e se
fortificarem no Rio Parahiba mandou ao Governador Luís de Brito de Almeida
afose ver e elegesse sítio para povoação e por elle não poder ir indo o
Doutor Fernão da Silva Ouvidor-Geral e Provedor-Mor da fazenda deste estado a
Pernambuco lhe cometeo: o qual com todo o poder de gente depé e decavallo da
dita capitania e muitos índios que ainda antão havia foi no anno de setenta e
quatro a vê-lo e castigar os Índios Pitiguares que naquelles dias havião
asolado hum que hum Diogo Dias lavrador muito rico começava com grande
fabrico no Rio Recumzaem três legoas do Parahiba e como hia tão poderozo
correos e não lhe ousarão a esperar mas refazendo-se a fizerão voltar pela
praia tão depresa que não houve vagar para nada o qual acabados os negócios
aqui foi a Pernambuco se tornou para a Baya donde enformado o Governador Luís
de Brito d'Almeida do que pasava e da importância do negócio conformando-se
com ordem que tinha de El Rei se resolveu e determinou de hir em pessoa
conquistar e povoar o Parahiba para qual effeito na Cidade da Baya mandou
apreceber uha Armada de doze vellas com toda a gente que pode ajuntar,
levando toda a nobreza da cidade, officiaes da justiça e fazenda com todos os
petrechos e mantimentos necessários enfim com o maior aparato de Capitães
soldados e recado das mais couzas que lhe a elle foi pocível ajuntar. Partio
no mês de setembro de mil e quinhentos setenta e cinco, e com tempos
contrários a cabo de alguns dias andar espancando o mar tornou arribar a Baya
com alguns navios e Bernrado Pimentel d'Almeida seu Sobrinho que ia por
Capitão-Mor de Mar com outro seguio avante e fez viagem e foi a Pernambuco,
donde pelo Tio não ir se tornou a Baya onde a achou enfadado e cansado da
arribada todos os homens com suas matalotagens gastadas, e gastado muito
cabidal que da fazenda de el rei nosso senhor si meteu na armada que se
afirma que foi de muitos mil cruzados desfeita em Ar, sem mais lembrança do
Parahiba que não causou pouca adimiração por o geral conhecimento que em toda
a parte se tinha da importância desta empresa e mais pelo fruto que della se
esperava como das outras e muitos bens que povoada em logo se fizerão e a de
Pernambuco e Tamaracá, depois vindo o Governador Lourenço da Veiga no Anno de
setenta e oito e querendo prosseguir esta empreza mandando ao Ouvidor-Geral e
Christóvão de Barros Provedor-Mor lha encomendou cujo era Cosme Rangel de
Macedo e pos-que no tempo que nelle estive houve muitos rebates de Pitiguares
de todos fizerão recolher os moradores a Ilha de Tamaracá avizando sempre e
procurando fazer formação mas não houve efeito e parece que Noso Senhor a
tinha guardada para o tempo no qual havia de haver guerra a procurar-se de
toda a força e coração e se concluise e escusase muito cabedal e excesivos
gastos que os officiaes da fazenda de sua Magestade nesta empresa sempre
fizerão e davão em despesa e seguirão para ostentação e seus intentos mas
para ella alcançar e conseguir effeito e com isto pasemos ao tempo de El Rei
Dom Henrique. |
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Como Furtuoso Barbosa foi
encarregado do Parahiba Capítulo 3º El Rei Dom Henrique que Deus
tenha em glória movido dos clamores que desas Capitanias lhe fazião e do dano
que fortificados os Franceses com tanta multidão de gente Pitiguar
encarniçados com tantas mortes podião fazer a instância de hum Furtuoso
Barbosa que havia hido de Pernambuco, que por haver já no Parahiba carregado
navios de pao por alguhas vezes no tempo das pazes que lhe os Pitiguares
fizerão e por ter conhecimento da terra que delles e ter prasa e muitas
palavras o encarregou da conquista de povoações do Parahiba por contrato que
fez em sua fazenda dando-lhe para isso as provisões necesarias Náos e
mantimentos e conquistando e povoando o Parahiba a Capitania delle por dez
anos. Chegou Furtuoso Barbosa a Pernambuco creio no Anno de setenta e nove em
hum formoso Galião e ua zaura e outros dous Navios com muita gente portugueza
assim soldados como povoadores cercados com muitos resgates monições e
petrechos e cousas do Almazém necesárias asim conquista como a povoação que
logo havia de fazer e trazendo um vigário aquem El Rei dava quatro sentos
cruzados de ordenado e religiosos de São Francisco e de São Bento com toda
ordem e recado necesário /como digo a empresa a fazenda de El Rei devia de
montar um mui grande pedaço com que vendo-se enfunado e cheo de Senhoria e
sabido a tal estado se varou todo por ali esquecendo-se da obrigação que
traria em sete ou oito dias que esteve surto sobre Pernambuco sem querer desembarcar
nem tratar o negócio lhe deu um tempo com que arribou as Índias na qual
arribada lhe morreu a molhre sem ter acordo por não dizer outra escuza para
entrar o Parahiba donde tornando ao Reino partio delle no Anno de oitenta e
dous por mandado de el Rei Dom Phelipe noso senhor já com menos arrogância
por que chegando ao Porto de Pernambuco se concertou-a com os da villa de
Olinda que he a cabeça da Capitania de Pernambuco como pode que não desejavam
outra cousa ordenando-lhes com o lecenciado Simão Rodrigues Cardoso, Capitão
e Ouvidor de Pernambuco fose por terra com agente delle. Assim chegarão a barra do Rio
da banda do Norte com esta viptória com que consularão os da Armada e
animados uns com os outros e tratados em sete ou oito dias que ali estiverão
os meios de se fortificarem e povoarem da banda do Norte porque pareceo
imposivel da banda do Sul do cabedello por ser mao sítio e não ter água e
feita experiência em alguha que se abriu na praia e tudo muito praticado e
não sei como feito pellos enconvenientes e emposibilidades que a tudo a tudo
achava Furtuoso Barbosa fogirão a maior preça que o medo a cada hum ensinou
por verem da banda dalém junto com muito gentio Potiguar mandando dali o
galleão com aviso a sua Magestade do que pasava. Desesperado já Frutuoso
Barbosa de suas vaidades se veio lograr um novo casamento que a sombra da
governança de caminho em Pernambuco havia conseguido contando das perdas da
outra Molher e filhos que nesta jornada havia perecido, e infortúnios que
pela Parahiba havia padecido enfim ficarão ambos em calma e os inimigos mais
soberbos e estas Capitanias peor que nunca e a de Tamaracá de todo
desesperada e para se despovoar só o detinhão alguns poucos as esperanças que
lhe durou hum Antônio Raposo que por procurador mandarão a Baya a pedir
socorro com grandes requerimentos e protestos de encampações asim Tamaracá
com Pernambuco, no outubro de oitenta e trez andando-se iso já traçando por
ordem do General Diogo Flores de Valdes, do que he bem que se dê contas e
como veio ter a Baya e partes do Brasil. |
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Como chegando Diogo Flores a
Bahia de ordenou vir ao Parahiba Capítulo 4º No prencípio do mez de Julho do
Anno de mil e quinhentos oitenta e tres chegou a Cidade do Salvador Bahia de
todos os Santos metropol deste Estado do Brasil com oito náos Diogo Flores de
Valdes resto da Armada das vinte e tantas que el Rei nosso senhor o mandou
por General conquistar e povoar o estreito de Magalhães, donde vinha de
arribada havendo deixado no Rio de Janeiro Diogo De |
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Salto do Capitão Falcão e
fugida dos nosos Capítulo 5º O noso exercito Português por
ver que sua estada ali ja não era de efeito se partio levando a via do sertão
em busca do gentio inimigo onde o Capitão Simão Falcão enquanto asistiam na
obra do forte espiava uha Aldea a salteou em uha madrugada com boa mão e
felicidade matando alguha gente e captivando quatro pessoas com cuja lingua
foi o exército pelo mesmo rumo buscar os inimigos athe uha campina que agora
chama das outras três legoas do forte aonde se alojou o arraial e por ser a
festa do espiritu santo e a gente ser dada a folgar se puserão a festejar com
demasiado descuido o dia e oitavas havendo sinco dias que ali mal estavão e
devia Dom Phelipe por descarga de sua dezordem que esperava seu sogro Phelipe
Cavalcante que não andou bem em ficar no forte com achaque se veio ter com
elles pelo Rio asima. Uha tarde ouvindo uha trombeta
e outro rumor apontarão se fose descobrir o campo por haver muito que ali
estavão em ordem e indo asim athe dez de cavallo e alguns quarenta depé com
alguha quantidade de Indios a ordem de hum Antonio Leitão de Vão em uha
visitada menos de três tiros de espingarda que os começão açacodir de maneira
que os desbaratavão de todo mando o Capitão e mais de trinta e muitos Indios
e foi um desbarate tamanho e nosa dezordem que athe avista do arraial os
vierão matando sem haver acordo para lhes acodirem antes se por todo em
tamanha confusão que seos poucos inimigos que ali estavão o cometerão o
desbaratarão que todos andavão pasmados e a frouxidão do Capitão Dom Phelipe
que como foi noute com dobrada dezordem se deitarão a hum alagadiço que
estava junto onde havião de tornar para o forte e sendo elle mais de tiro de
espingarda que em partes sorvia lanças com pouco entulho que quando por elle
passarão uns por sima dos outros como se fora por uha boa ponte, e foi cousa
milagrosa ou milagre de medo a quem não sabe estes pasos: com este medo forão
todos bater as portas do forte aonde o Alcaide enfadado de os ver tal os teve
athe alto dia a chuva sem lhes querer mandar abrir que foi leve castigo para
o que merecião. Pasado aquelle dia que todo o Alcaide e gente que ficarão no
forte gostarão asim os perçoadem tornarsem em busca do inimigo com mais
sincoenta arcabuzeiros Espanhoes que lhe o Alcaide dava dos do presídio tais
estavam que nem com iso nem com e acharem ainda alguns noventa homens de
cavallo e mais dusentos e quarenta de pés que quase farião trezentos que havia
o maior respeito que athe aquelles tempos se juntou no Brasil se quiserão
nunca abalar senão voltar para casa com deixarem mais e quatro centos Índios
dos nosos mortos e mais de sincoenta homens brancos que a maior perda que
estas Capitanias athe agora receberão por que quase tudo erão escravos, afora
mais de sento de guiné e asim a maior fugido e sem nenhuha ordem se virão
todos pasando o Rio deffronte do forte em barcos com bem de travalho por ser
força do inverno que os tratou mal todo o caminho aonde també morrerão muitos
cavallos e gentio a mingua por nenhum se guardarem huns aos outros e tais
chegarão a Pernambuco de todo desbaratados no mês de Junho. |
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Do primeiro socorro que por
diligência e indústria do Ouvidor-Geral se mandou a Parahiba Capítulo 6º Chegados desta maneira a
Pernambuco logo naquelle mez começarão os requerimentos do Alcaide do forte e
Furtuoso Barbosa por ficarem faltos de mantimentos e esta foi a maior que
noso exército padeceo tudo por dezordens das cabeças que havendo farinhas a
repartirão mal e por ficarem os inimigos victoriosos molestavão de continuo o
forte porque esta nação de gentio victorioso não há quem a sofra porque são
esforçados de sua pesoa mais que todos os outros e tão ouzados que não temem
morrer porque tudo entre elles he opinião de valentes e so os detinha não
levarem a fortaleza nas unhas a furia da artilharia que cruamente achando-os
em descoberto os despedaçava a cuja sombra o Alcaide Francisco de Castejon em
alguhas escaramuças que com elle esteve lhe mostrou o valor de sua pesoa e
dos Espanhoes e de alguns Portugueses apesar de seu Capitão Furtuoso Barbosa
que não tinha paçiencia com estas escaramuças e com requerimentos de medo as
estrovava o quanto podia e dentro de sua casa que tinha no forte no meio dele
e além encontrados elle e o Alcaide nos humores tudo herão brigas e maz
palavras no que maz sofreu Furtuoso Barbosa e já que não tinha ninguém ao
menos niso e sua paciência bem padeçeu e asim com medo uns e outros a fraca
nação que havia do Rei ao som das brigas domésticas e da dos inimigos que
todas as semanas corrião pasarão aquelles Mezes de Junho e de Julho sempre
com muitas papeladas uns dos outros e requerimentos de socorro ao
Ouvidor-Geral que como encarregado para iso do Governador e General Diogo Flores
reconhecido por mais zeloso do serviço de el rei, tudo batia nelle athe os
mantimentos que havia de dar Martim Carvalho que parece que por particular
infloencia começou logo a correr pesadamente neste negóçio do Parahiba e a
esa conta se comesarão desavenças entre elle e o Ouvidor-Geral o qual como
fragueiro e impaciente dos vagares de Martim Carvalho brania e metia os
officiaes da Câmara niso por pairar com o bispo compadre fugiam e grande
amigo do provedor Martim Carvalho porquanto o mesmo bispo fizera com o
Governador Manuel Telles que o mandase com aquelle cargo com o que ficou a
villa quase dividida o Ouvidor-Geral com a Câmara que sober iso os apertava
contínuo com requerimentos para os espetarem e as vezes nada abastava se via
infinito e enfadonho contar aqui as particularidades que nisto pasarão, basta
que noso algum pouco provimento se deu se não a força de grandes
requerimentos e feros que ainda as vezes niso metia o Ouvidor-Geral com todas
as superabundancias por outra via se mostrava zeloso e deligente que em
verdade foi demasiado affeição a que nestas matérias teve ao diante muito
mais mostrou maz por atalhos evitar ódios e não descobrir faltas paso
brevemente por estas couzas. No Agosto logo seguinte que do
forte cresciam os requerimentos apertados os da guerra e fome que athe os
cavallos tinham comido mandou Martim Leitão por mar vinte e quatro homens
brancos a carrego de hum Nicolau Nunes com algum mantimento que no Navio
mandou o provedor com tudo vendo-se o Alcaide Francisco de Castejon muito
perseguido dos contínuos rebates dos Indios e tanto descuido do provedor si
veo em Setembro a Olinda aonde achou Pedro Sarmento de Gamboa Governador do
estreito de Magalhães que Martim Leitão tinha agasalhado chegando ahi
destroçado e ambos por suas vias pedio mantimentos que o Sarmento houve pela
do Ouvidor -Geral e foi maz para o Alcaide tão devagar se aviarão que andava
impaciente pelo que achando-se um dia além de outros muitos em casa de Martim
Carvalho com os juizes e officiaes da Câmara a portestar-lhe mantimentos em
presença do bispo vierão muito roins palavras as quaes alguha gente de casa
arrancou com os soldados do Alcaide em sima onde todos estavão e batalhada
asim a casa sairão a rua com grande que se ordenou de muita gente por os do
bispo viram chamando a que da Igreja e aos officiaes da Câmara acodem toda a
villa e asim avolta e ódio o Ouvidor Geral de sua casa e os apaziguou como
podia ficando disso Martim Carvalho muito peor por isso se tornou o Alcaide
para o Parahiba |
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O segundo socorro que se mandou
ao Parahiba e destruição das náos Francesas Capítulo 7º No Novembro seguinte entrarão
duas náos Francesas no Parahiba e reconhecendo o forte e uha grande náo
Portugueza com dous atachos que lhe Diogo Flores deixarão se sahirão e foram
surgir trez legoas abaixo da boca da Bahia da Traição e começando o trato com
os Pitiguares que sempre forão amigos vierão correr ao forte trazendo alguns
brancos que grandemente apertaram com grandes cavas que em voltas farião
pellos não pescar a artilharia com as quais cobertas e outros ardis como
práticos nas nosas guerras e ordem ajudados dos Franceses puseram o Alcaide
em termos de desesperar de poder defender-se e logo diso avisou ao Ouvidor
Geral com grandes requerimentos asim seos como de Furtuoso Barbosa asignados
por Espanhoes e Portugueses; o Ouvidor no próprio dia que lhos davam se foi
dormir ao arrecife que he o Porto de Pernambuco uha legoa da Villa onde a
prestou hum navio de setenta toneladas a sua custa com artilharia munições e
mantimentos e quarenta e tantos homens brancos escolhidos todos e de opinião
e os mais delles de sua obrigação que todos folgarão de hir a seu rogo e
sesenta Índios dos nosos de paz e em quatro dias ahi dando em uha rede
portando doente os deitou pela barra fora que foi espantosa diligência e este
navio com a gale de Pedro Lopes Capitão da Ilha Tamaraca que também
juntamente o Ouvidor-Geral forneceu em que o mesmo Pedro Lopes foi por
Capitão com quinze ou vinte homens e alguns Indios se juntou na Parahiba onde
foram recebidos e estimados como a própria vida e salvação, os franceses
vendo o socorro os quais pelo muito tirar do navio lhe chamando botafogo se
recolherão a suas naos e asim dado ordens e consultado o caso o Alcaide com
os Capitães do socorro que do navio era hum Gaspar Dias de Moraes soldado
antigo de frandes que a rogo do Ouvidor-Geral aceitou sello asentavão ficase
Pedro Lopes Capitão da galé no forte para respeito do muito gentio que dirião
pasar de dez mil os que os tinham servido com suas covas e trincheiras que o
Alcaide na sua galé e não que lá tinhão, e a do socorro foce buscar os
franceses, a que tomarão o mar e varadas inteira lhe queimarão as naos e
matarão alguns que foi hum honrado feito por serem as naos grandes e estarem
avisados e com iso voltando a galé e navio, o que a nao por ser muito grande
não pode fazer lhe foi forçado arribar as antilhas e malta foi a maior parte
da artilharia que aqui tomarão. Chegados o navio e galeão forte desembarcando
de subito e com a gente de dentro deram nos inimigos com tanto impetu que lhe
ganharão as suas instâncias matando muitos com que se afastarão bem longe e
os nobres cobrarão a agua que lhe tinham tomada os inimigos com isto
desesperados se forão de todo e asim ficando os do forte mais largos que
nunca a todos muito contentes com grandes Louvores ao Ouvidor Geral Martim
Leitão se tornarão a Pernambuco a lhe dar neção de tudo e receber os parabéns
da jornada que sento foi de muito effeito para desengano dos franceses e
entenderem que mesmo na Bahia da Traição haviam de ter colheitas como prova
que se tinha athe este tempo por impocivel os navios que de cado Sul focem a
Paraiba tornarem a Pernambuco sem arribarem as Indias por a costa ja vir
muito voltando e nem se parando vir de lá senão com nortes e nordeste pelo
menos com qu etambém os pitiguaras se desenganarão de poderem do commercio
com os Franceses lançados do Parahiba e com esta magoa e desejo de vingança
ordenarão o que ao diante se segue. |
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Em como o Ouvidor Geral Martim
Leitão foi ao Parahiba a primeira vez Capítulo 8º No fim de Janeiro de oitenta e
sinco avisou o Alcaide ao Ouvidor Geral e Camara se juntava mais gentio que
nunca e tinha feito tres sercas muito fortes ao longo do forte ativo
depeobreiro de pés de palmeiras que por estupentas e groças de que naquellas
partes há muitas os defendia da artilharia e todas as noutes os iam chegando
e ganhando terra pela qual causa estava muito nervoso que por aquella via com
as próprias cercas os haviam abambamdo athe se abraçarem e igualarem com o
forte sem se poderem haver da artilharia nem as mãos se poderiam defender por
no forte haver muitas doenças por respeito ao roim sítio água fomes com que
muita principalmente dos Espanhoes que nos tempos pasados lhe era morta e
asim estava em muito prigo e dependeria sem falta indo os inimigos avante aos
oito de Fevereiro dobrou com maiores requerimentos e encampações de logo
despejarem todos como sem falta por particulares avisos de lá de sobre athe
terem o melhor embarcado em uha náo que lá tinham o respeito da qual nova
toda a villa e Capitania se meterão em grande revolta e muito mais com se
saber esta determinação dos do forte do Parahiba e por juntamente ser chegado
em socorro aos Pitiguares o famoso /entre o gentio/ braço de peixe logo o
Ouvidor Geral em lhe dando os requerimentos os mandou ao Capitão Dom Phelipe
que por estas deligências do Ouvidor estava já liado com Martim Carvalho ao
qual também se levaram outros sobre mantimentos vindo a iso o temedor deles
do forte e com os da guerra ao Ouvidor Geral e Camara o Tenente no que estando
todos concordarão juntamente o bispo, Capitão Dom Philipe, o Provedor Martim
Carvalho, e Camara com todos os da governança e mais povo requerem ao Ouvidor
Geral Martim Leitão em particularmente escrever a todos muitas cartas
considerando- os com versões a que ninguém pode fugir para a jornada e
avisando a muitos porque como no Brasil tudo he fiado e a maior parte dos
nobres nessas cousas querem superabundâncias a que os mercadores já não
acudirão era forçado fazel-os ele provém e aviar uns e outros e num infinito
iso e ordenar o necesário, fez também duas Capitanias para sua guarda que
depois mandou vanguarda pela confiança que nellas tinha por ser tudo gente
solta e muitos e memalucos e filhos da terra porque estes nisto são de mais
effeitos da terra, e estas duas companhias deu sempre a sua custa de comer e
tudo necessário, e proveu de armas ainda que nos requerimentos que lhe
fizerão para lhe haver de hir diria o Provedor Martim Carvalho que foi que
elle aprovia a custa da fazenda de sua Magestade. Além dos dous Capitães da
guarda que hum era Gaspar Dias de Moraes que de socorro antes havia ido ao
Parahiba e Mice Hipólito antigo e mui prático Capitão da terra se elegerão
mais de novo por Capitães Ambrósio Fernandes e Fernão Soares que se chamarão
Capitães dos Mereadores foram mais os Capitães das companhias da ordenança da
terra Simão Falcão, Jorge Camello, João Paes, Capitão do Cabo de Santo
Agostinho muito rico que fez nestas jornadas por sim de todos em tudo com
muitas avantagnes levando sempre a retaguarda e João Velho Rego, Capitão de
Igaraçú e todos os da Ilha Tamaracá com seu Capitão Pedro Lopes e porque
havia muita e boa gente de cavallo que foram sento e noventa e sinco ordenou
três guiões de trinta cavallos cada hum dos milhores para acodirem ao que com
presa hia mais um filho do Capitão Antonio Barbosa com a sua bandeira por
elle ficar doente que em todas as jornadas o fez muito bem, leva a segunda
deste exército sobre quem carregava o peso delle Francisco Barreto cunhado do
Ouvidor Geral Martim Leitão a quem chamavam mestre do corpo e elle o pudera
ser de outro de muitos milhares de soldados por sem esforço, aviso e
destreza, e assim era estranho o cuidado e deligência com que a tudo ao dia
se provia elle era a esperança de todo o arraial e a gosto de seu cunhado
Martim Leitão ao qual Francisco Barreto sempre ajudou em tudo e acompanhou de
maneira que se pode dizer por elle ser o fiel achates o qual com os que se
ajuntarão a sua porta que foi a mais fermosa cousa que nunca Pernambuco vio
nem sei se verão foi dormir no campo de garaçu no meio do qual mandou armar
sua tenda de campo com outras duas pegadas, uha dos nosos dous padres e outra
de sua despença, onde se agasalhava a gente de seu serviço que eram com as
duas companhias cem homens. Aqui mandou o Governador Martim leitão ao General
porque asim lhe chamaremos esta jornada deitar grandes bandos pondo graves
penas contra todos aquelles que brigasem ou ransasem encomendando muito
particularmente que houvese entre todos muita amizade e conformidade e outras
boas ordens e necesárias que se se cá costumaram no Brasil não houvera os
desconcertos e perdas que tivemos nos tempos pasados ali estive três dias
esperando se juntarem todos os do termo que era cousa dever naquelle campo
todos armados onde fez apasentador e mais officiaes de campo e tanto mais
para ver quanto se menos via outro tal no Brasil de tantas nem tão boa e
lusida gente, e até de todos os navios lhe derão de cada hum, hum, e dois
soldados. |
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Da ordem da jornada e do
primeiro rompimento e serca tomada Capítulo 9º Ao quarto dia que foi o
primeiro de Março daquelle alojamento e foram dali deças legoas além do
engenho de Phelipe Cavalcante com muita água e receio de os impedir o em
mesmo...cabo deverão foi feita resenha e acharam-se quinhentos e tantos
homens brancos dali foram dormir ao outro dia além do Rio de Tapurema aonde o
General deu regimento a todos e ordem do que haviam de fazer repartir as
companhias e ordenou que hum dos guiães de cavallo aos dias por evitar
competencias foce sempre na vanguarda o outro na retaguarda e o terceiro na
batalha onde elle hia porque da gente de cavallo escolheu noventa os melhores
de que fez três guiões cada hum de trinta cavallos de que eram Capitães
Christóvão Paes, Antonio Cavalcante, filho de Phelipe Cavalcante, e Baltazar
de Barros, e ao Capitão que no dia tocava a retaguarda tivese obrigação de
mais uha hora ante manhã com alguns Indios comerem e descobrirem o campo e
asim com toda ordem pocivel e de conterem irem alguns homens de confiança com
mamelucos e Indios por descobridores diante e pellas Ilhargas do exército
metidos pello mato levando por cabeça hum Manoel Leitão com mais sete ou oito
de cavallo e alguns arcabuzeiros que são doze aos quaes seguiram os nosos
Indios forros e a elles as companhias da vanguarda em sua ordenança com ordem
de nenhum butim a pé donde os cometesem e se derem signal uns aos outros e
pasarem palavra ou correr nem como cá devemos de official em official sem
embargo do caminho ser muito roim e tão cheo de mato que era necesário irem
os gastadores diante fazendo encaminhar o arraial, enfiados huns tras outros
e com a gente sem tanto que tomava mais de meia legoa ao comprido em um
momento se sabia em todo o exercito tudo o que em alguha parte delle sucedia,
e asim forão por suas jornadas em sinco dias athe entrarem na grande campina
antes do Parahiba aonde pela lembrança do que ali em outras jornadas alguns
tinhão visto iha a gente tão apertada que sendo ali tão bom caminho não
andavam por mais recados se pasavam a vanguarda em que naquelle dia por ser
demais importância iha Francisco Barreto mais pelo vagar tomando o General um
galope em um cavallo que havia pouco tomava folgado foi ver o que era e
achando ir iso já pelo mato os que tinhão o nome de gastado ves e que também hião
a cargo de Manuel Leitão abrindo, com as fouces caminho por a fazerem de
vagar os reprendem Martim Leitão e pos ali seu cunhado que por ser tarde
avreviase para os não estorvar andando a noute, Francisco Barreto fez marchar
avante a vanguarda com presteza enleado e o General esperou ali athe se meter
em seu logar aonde hindo já quase sol posto se sentiu dar a vanguarda em uha
grande serca e que alojava o Braço de peixe pegado com o Rio Taibore com mais
de tres mil almas onde o açodamento no acometer de Francisco Barreto e de
alguns Capitães e com sobrevir logo a noute escura e estar da outra banda da
serca um grande alagadiso que asim se situa sempre o gentio para se acolher
quando comprir foi causa de não se fazer grande proeza maz matarão muitos dos
inimigos que o grande odio não consentia neste primeiro impetu captivar estes
emprendimentos com o guião daquelle dia se embaraçar de maneira que lhe foi
forçado mudar as adargas a mão direita por causa da serca foi também causa de
se não fazer muito mais, se mais há que em devendo uha serca muito forte com
sua rede por fora e grande que prometia mais de três mil homens se lançando a
ella como leons e a levarem logo nas unhas ainda que com alguhas poucas
frechadas por que foi tal apreço que lhe não dera logo lugar nem tempo para
desprenderem muitas, o que sentindo o corpo do exercito e retaguarda que
ficava atras rebentavam todos por chegar com os dianteiros a briga e por pesa
que se derão quando já chegarão era acabada entrando pois todo o exercito na
serca que Francico Barreto detinha franqueada com a gente da vanguarda e
alojados todos nella com alguns rebates e repiques que tiverão dos inimigos
que com presteza e animosamente se baterão repousarão todos ali aquella noute
e a sua vontade onde acharão muitas farinha feita e armas e pólvora para
hirem sercar o forte segundo os captivos dicceram. |
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Como se tentarão as pazes com
Braço de Peixe que não sortirão effeito Capítulo 10º Ao outro dia pela manhã sedo
logo os Indios se puzerão as pulhas como he seu costume em hum teso alto
defronte da nosa cerca alem do alagadiso com os quais por se entender serem
da gente do Braço de Peixe o General que desejava ter paz com elles e
apartal-os dos Pitiguares e reconciliarem-se do mao que morte de sento e
tantos homens de Gaspar Dias de Ataide e Francisco de Caldas na serra havia
pouco converzão tinham feito mandou descer todos da cerca e por línguas
travar práticas com elles que estivesem seguros e reprendendo os de fugirem
pois so buscavamos os Pitiguares com os quais nunca queriamos paz, mas com
elles sim dizendo-lhe maz que o General era homem do Reino fora das malicias
do Brasil e estava muito bem enformado da sua amizade com os brancos pellos
quaes sabia quebrara a paz e que se os Capitães forão vivos os mandara el Rei
por elle castigar, e com resto vierão em práticas por via de Indios e bons
linguas principalmente pello padre Jeronimo Machado que no alagadiso com
resguardo estiverão todos mandando-lhes dar vinho de que todos beberão onde
concentrarão dados arrefens mandar já o Braço seus embaixadores depois de
jantar asentar pazes com o General, o qual neste meio tempo trabalhou com boa
desimulação por Indios linguas descobrirem o alagadiço se por sima ou por
baixo daria vao a gente que sucedendo fazia conta mandar por entre o mato
tomando-lhe as costas no oiteiro, mas não havendo nisto remedio pella
grandeza do alagadiso e espesura do mato a roda e por pouca vontade dos nosos
ao meio dia vierão tres indios do Braço a tratar das pazes que forão ouvidos
na tenda do General que examinados por linguas pello Capitão Simão Falcão e
feitas todas as diligencias e ostentações e artifícios que parecerão
neseçarios por o Braço e os seus terem consigo muitos Pitiguares juntamente
com o medo de suas proprias culpas nada bastou para o asegurar e asim
tornando-se a tarde quiserão lá matar os de fora ficou a guerra rota que os
inimigos estimando pouco esquentarão toda aquella tarde com trinta e tantas
espingardas e muitas frechas, ao que ainda querendo atalhar o General vierão
os desenganar mandou sahir por sua ordem todas as companhias e gente por uha
campina entre a cerca e o alagadiso que naquella manhaã para o que sucede já
tinha mandado notar estendidos por alli todos os Indios por se me mandou
mostrar de dous berços que trazia em carro, e bem varejados em hua
caiçara tranqua donde os negros pelejão e se defendem que no cume de hum pico
no cavo hua queimada os inimigos haviam feito e com outros muitos asombros
nada bastou para quererem paz , com isto se resolveu o General em lhe darem
ao outro dia batalha mandando aquella tarde fazer muitos feixes de farinhas
que ao longo da serca havião contado para que com as pontes que o gentio no
algadiço havião feito pasarem da outra banda, e asim anciosos muitos no
arraial, ou medrosos de por todas as partes naquella tarde e noute sentirem
gentio trabalhar cortando nos matos para seus repairos e continuas rebularias
de que muito usão não foi nada trazido ao arraial esta determinação do
General o que se vio melhor no conselho que esteve aquella noute na tenda do
General que foi asas vario e confuso e a seus lados se asentou ficasem ali as
duas partes do arraial e a petição de todos Francisco Barreto ficou ali com
elles e elle athe com o terço logo nomeado iha dar nos inimigos no pico
ficando ca tudo provido para o que secedese e asim foi a muitos bem triste e
espantosa noute aquella quanto o dia seguinte fermoso e alegre que tal he o
mundo. |
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Como foi desbaratado o pico do
Braço de Peixe Capítulo 11º Ouvindo misa ao outro dia pella
manhaã muito sedo partio o General com as companhias da vanguarda somente e o
guião de cavallo de Antonio Cavalcante que mandou o roçado e em uha queimada
nadar da nova parte do alagadiço por alli não arrebentar alguha sillada e nos
tomarem as costas e levando o padre Jeronimo Machado um crucifixo diante,
acharão no algadiço muito estravo por de noute os inimigos cortarem muitas
arvores com que atravesarão e embarcarão todo com isto e com andarem muito
soltos pella queimada da outra banda as frechadas, e arcabuzadas se pasava
devagar e havia muito nesa e com a presa e pero da gente se não ajudarem das
foices os gastadores e machados nem ordenarem bem a faxina que cada hum
trazia chegou a cousa a tanto que foi necesario ao General agastar-se com
alguns e mandando ficar a companhia de Ambrosio Fernandes que subindo houvera
de tomar a parte direita e ficando com ordem de não bolirem do alagadiço athe
todos serem emsima arrancou da espada jurando havi ade escalra o primeiro que
falaçe senão obrarem todos como esforçados histo he meteu-se apreçado ao paso
carregando nas costas dos genteiros fez pasar uns as vezes por sima dos
outros e tomar a ladeira asima bem depresa muitos pella aspereza da costa e
pedras com que tambem lhes tiravão se detiverão mais de hum grande quarto
depois de recolherem os inimigos no forte que por arte e por natureza lhe
estava após sabião os moços em pes e mãos e aferrando todos a cerca não na
acabavão de render o que sendo o General tomou hum ingres que levava consigo
armado e sobindo as costas em sima da cerca com uha fermosa lança ingresa de
fogo acesa fez tais terramotos deitando infinidade de peladuras que dentro em
si tinha despejarão os inimigos por ali e derribando as nosas duas ou tres
lanças derça (sic) que todos tinhão contado caso de romanja tornando alguns
de baixo mas sem perigo e os foram seguindo hum pedaço ainda que o roim
caminho e empedimento que para este tempo os inimigos tinhão feito que para
nos era muito que elles são bichos do mato foi causa de escaparem muitos o
que ordenou asim Deus para nos ficarem como agora os temos por amigos:
corridos asim mais que os nosos o puderão mandou o General queimar toda a
caiçara e madeira e asolado tudo se tornou para seus companheiros a cerca que
o vierão subir fora com grandisisima e demasiada alegria parecendo a todos
seria o negocio concluido, e asim com o fé deu saudamos o levarão a uha
jamida de rama no meio da cerca onde dirião misa e no mesmo dia a tarde houve
um rebate da banda do Tibere a que alguns Capitães acodiram desordenadamente
e por ser a revolta grande mandou o General a Francisco Barreto os foce
recolher o que fez muito bem e com muito acordo por que em a escaramuça que
se travou forão mortos alguns Pitiguares sem dos nosos haver ferido e por não
ser já de effeito a estada ali ao outro dia mandou por fogo a serca que toda
ardeu e com todo o exercito pello Rio Tibóre abaixo foi seguindo os inimigos
e forão dormir dalli duas legoas aonde se agora chama as mares e descansado
ali tudo por se entender haverem dado volta os inimigos pella campina
juntando-se com os Pitiguares arrancados todos os mantimentos que ali foi
pocivel que foi a maior guerra que se lhes pode dar nos tornamos asima
deixando queimada duas Aldeas que ali tinham a buscar outra cerca que asima
do Tibere tinham nova e do gentio principal por nome asento de pasar o aonde
antes de chegarmos ao terceiro dia pela manhaã com o embaraço do roim caminho
que se iha abrindo pello mato e brejos se embaraçou e deteve tanto a
vanguarda que depois de muitos recados foi forçado ao General com o Ouvidor
da Capitania Francisco do Amaral que sempre os seguia contara gente
apiando-se para poder melhor pasar avante e ir rompendo a ver o que era
chegou aos dianteiros que com hum roim paso e inimigos corredores que se
atravesarão diante se detinhão, vendo isto o General com persteza pos alem de
hum brejo seus arcabuzeiros e alguns Indios por força por todos temerem e
pasando elle empesou da outra banda do brejo fez a presa eitar grandes ramos
de arvores e alguhas inteiras com que em breve entretendo os inimigos com
alguhas arcabuzadas e levando-se sempre de gente que continuo hia paçando
segurou o paso e mandando logo recado ao exercito marchase depresa por elle
entender ser aquilo detença dos inimigos para melhor os despejarem entretanto
aserca do molherio e filhos com defeito hera e ainda que o General com toda
presa com a vanguarda marchase e se adiantou aos seguir já achava a serca que
era grande e forte despejada ainda que em alguns velhos, e femeas que não
puderam fugir se vingou o noso gentio e ali separarão aquelle dia com outro
por que com os muitos alagadiços e diversidade de opiniões dos caminhos que
ninguem sabia (e não se espante alguem pois athe esta jornada as de antes
foram estrada de cegos em que era forçado ir por sima e fugir pella praia) e
asim com estas duvidas e informaçoes se resolveram tornar o Parahiba abaixo
buscar o paso para o forte aonde se asentaria o que compria ali vimos huns
grandes labarentos certo que ainda que barbaros muito para notar que os
nossos inimigos tinham animado pello outro caminho que ia ter a esta area que
era a estrada e certo que farião adimiração os fogos que chamão mondes,
trincheiras intulhadas de terra cegas de rama e muitas uhas com as outras ao
longo do caminho pello mato e tão cortado e embaraçado desas cousas que a não
haver grande cautela sincoenta bastavam a sinco mil maz de tudo noso Senhor
nos guardou e desviou: Pasado embaixo o Parahiba dali tres dias chegamos ao
forte que era cousa piadosa de ver asim o dannificamento com as peçoas dos salvados
que bem mostravão a fome e mizerias que tinhão pasado com as roinas que por
ser de taipa havia tudo mister reparado e logo na tarde que aqui chegamos
procurou muito o General com Furtuoso Barbosa fisese ir duas legoas acima
junto das mares aonde havia muitos mantimentos da parte do Sul do Parahiba
aonde agora está a çidade de Nosa Senhora das Neves fazer povoação para o que
lhe juntava oitenta homens e Indio os mais que pudese e se oferecia estar com
elle dois meses e os outros seis seu cunhado Francisco Barreto maz nunca se
pode acabar com elle e por autos que diso se fizerão dezestio de tudo dizendo
que não estaria mais uha hora no Parahiba por sima de tudo isto determinou o
General fazer seo deste sitio que logo a todos pareceo bem a povoação aguentada
com forte e era cousa facil sustental-a para o que cometeo a Pedro Lopes e
outros maz não pode concluir e por não poder tempo mandou ao Capitão João
Paes com tresentos homens de pe e de cavallo correr a Bahia da Traeção que no
mesmo dia partirão, não continuei aqui as diferenças que teve aqui o Capitão
Simão Falcão sobre os generalados destas idas que depois de muito sofrimento
do General lhe costou deixado preso no forte, e outra que teve com o Alcaide
Fernão Soares Capitão dos moradores e outras muitas graciosas de que o muito
refresco que ali acharão nos barcos de mar que não são de minha obrigação com
cada hum ahi ter os seus mimos e provimento nos barcos que eram chegados. |
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Como o Capitão Castejon fugio e
largou o forte e o Ouvidor Geral compreendeu e agasalhou os soldados Capítulo 13º O primeiro de Junho do mesmo
anno de oitenta e sinco chegou nova a Pernambuco hera chegado a Tamaracá o
Capitão Pedro Lopes que o Ouvidor Geral Martim Leitão deixara com alguns
Portugueses no forte do Parahiba em companhia do Alcaide e que trazia algum
facto e que todos publicavam desejarem-no de todo logo e que era cecreto
buscavam piloto para de lá os levarem com os Espanhoes as Indias e como o
Ouvidor Geral andava tão pronto e receoso destas cousas logo pela posta
mandou buscar Pedro Lopes do qual enformado em quatro dias concluiu com elle
se tornase asistir no forte como o deixara com alguns da terra e gente no
qual estivese athe Janeiro com obrigação de lhe darem cada mez sincoenta
cruzados porque não seria posivel deixar el Rei de athe então de avisar e
prover por cuja falta se despovoava isto dificultosamente aceitou Pedro Lopes
maz com promesas de qualquer achaque com que o Castrejon viese o deterem por
sua ma condição fogiam também della, e feitos altos com a Camara e aceitado
sahio nesta materia e outro maior incoveniente de todos que foi resolver-se o
Provedor Martim Carvalho que então mal provia o forte o não querer mais fazer
por nenhua via nem iso entender e asim respondeu por altos públicos, que asas
niso repetiu o Ouvidor Geral e asim ficou tudo desarmado e se concluira peior
se o Ouvidor Geral não tratava este negócios por via de emprestimo com que
logo mandou ao Capitão Pedro Lopes fizese rol do que havia mister para
provimento de cem homens em seis meses e feito e somado em tres mil cruzados
os mandou logo tomar e repartir pelos mrecadores que tinhão as cousas
necesarias aos que tais se satisfazia com creditos de João Nunes mercador e
tomando navio e aviados por não suceder no forte fazerem do Alcaide com os
Espanhoes aballo lhe fez escrever da Camara com muitos mimos e certeza de
serem agora muito melhor providos pois haviam de correr por elles livres de
Martim Carvalho que muito deviam estimar o mesmo lhe escreveo o Ouvidor Geral
e com estas cartas se foi Pedro Lopes aviar a sua casa na ilha Tamaracá aonde
o havia o navio e gente de hir buscar de caminho e elle entretanto avisaria o
Alcaide, e ou o diabo atecese ou tivesem com amigos e com Espanhoes já
tratase Pedro Lopes não avisou ao forte nem mandou as cartas indo iso tao
encarregado e as teve em seu poder sem as mandar, se fala venda de Pedro
Lopes des de oito de Junho athe vinte e quatro que estando tudo a pique para
outro dia partir o navio e de caminho hir pella Ilha se começou a dizer serem
chegados castellanos do forte à Ilha dizendo vinha o Alcaide atrás e deixava
tudo arrasado, a isto que em breve concluiu a terra se juntou toda a Villa as
ave marias em casa do Ouvidor Geral causou lastimosa porque os homens
costumados já com o forte principalmente os fronteiros algum repouso andavam
pasmados o Ouvidor Geral que nestas cousas não dormia aventou se juntasem
logo pela manhaã no collégio, Bispo, Capitão Dom Phelipe, Camara, Provedor
Martim Carvalho e na mesma noute espedio os seus officiaes que façam buscar a
Castrejano e lhe trouxesem pureza a bom recado como fizeram, e nas preguntas
não deu outra visão senão da fome e não ter aviso que era asas fraca pois
para a fome confesava com muita seguridade depois da guerra que havia dado o
Ouvidor Geral não aparecer mais inimigo e hirem ahi brancos que lhe havia
deixado pello Rio acima buscar mantimentos que era asas provimento e a
tardança foi pouca, maz devião de estar enfadados e vingarão-se em deitar a
artilharia ao mar e uha náo que lá estava ao fundo a por fogo ao forte e
quebrar o sino e com iso se vierão a Villa como quem não tinha feito nada e
por nosos pecados que sempre desfazem o bem e ajudam o mal asim lhe sucedeu
depois, por que no Reino ao Castrejano aonde o Ouvidor Geral o mandou por
mandado de el Rei preso, sahio elle bem pello Ouvidor Geral não sei como, são
frutos do tempo que jaz em officio em execução dar rezão: ao outro dia pela
manhaã juntos em modo de conselho no collegio houve alguhas duvidas com que o
bispo e outros movidos de quam maldade do reino respondia a tanta importância
dificultavam a empresa que a verdade estava mais duvidosa que nunca por ser
sobre tantas guerras e lá se consumirem tantas vezes os nosos e se recearem
Franceses que nunca ali faltavão e os Pitiguares se refazerrem no noso forte
pelas quais causas todos dirião que nunca na terra sem groça mão do Rei
haveria força para os deitaram delle do que em ninguém havia confiança por
serem iguaes em o mundo antes em todos desmaio grandisimo e maiormente pello
desamparo com que os officiaes de fazenda haviam largado de todo o negocio de
tanta emportancia se o Ouvidor Geral Martim Leitão todo aecso em colera e
fervor com que andava e com muitas rezões os não persuadia a de entre si
elegerem hum homem que com cento e sincoenta que se oferecia a buscar-lhe, e
gentio com despesa e velualha que estava buscada tornase logo recuperar o
perdido e senão que elle com os seus e amigo que pudese estava determinado
meter no noso forte arruinado por os que tinhão obrigação de o defender e isto
com tanta veemencia e requerimento protestos e ameasas da parte de sua
Magestade que os espentou e aviventou e asim elegeram ao Capitão Simão
Falcão, que pareceo pesou para iso por Furtuoso Barbosa em nehuha maneira
querer aseitar esta empresa com estar a tudo presente de que Simão Falcão foi
logo avisado e o Ouvidor Geral com pregões indústria e suma deligência juntou
todos os Espanhoes que do forte vierão,e a presente na terra haviam dos quais
e fez duas esquadras de quarenta e dous que ajuntou em uhas casas a que cada
dia faria prover de nação ordinária de sua casa e a sua custa não se
esquecendo por via dos padres da Companhia a encomendar este negocio muito
particularmente a Deus esperando ainda alguas boas novas da inteligencia do
Braço de Peixe/ como atras dise/ que Deus acode e aprove tudo. |
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Novas do Braço de Peixe
princípio das amizades Capítulo 14º Havendo neste mez de Julho
alguha dilação pelo juntar da gente a qual nestas partes he muito dificultosa
com da de juntar para guerra mormente para esta tão cançada e por adoecer
Simão Falcão tanto ao cabo como esteve e no fim deste mez chegarão dous
Indios do aviso de Braço de Peixe ao Ouvidor Geral pedindo-lhe socorro contra
os Pitiguares que tornando-se pello seu recado para baixo ao mar o sercarão
por mezes e tinhão quase desbaratado, neste própio dia vestio Martim Leitão
os Indios e se foi ao arricife com João Tavares Escrivão da Camara e Joiz dos
Órfãos e apareser de todos pareceu mais conveniente e por serviço del Rei e
por lho elle rogar aseitou socorrese, como havia annos ao mesmo Braço no
sertão havia feito e asim com doze Espanhoes bem concertados e satisfeitos e
oito Portugueses com uha caravela equipada e concertada para tudo com alguhas
dadivas e bom regimento partio do porto de Pernambuco a dous de Agosto de mil
e quinhentos oitenta e sinco aos taes chegou pello Rio asima em fala do
gentio...veio com seu resguardo e bom recado conforme ao regimento que levava
com o Braço de Peixe e mais principaes no porto que agora he a nosa cidade e os
antigos chamarão de Cananéia asombrado os Pitiguares primeiro com alguns
tiros que presumindo mais forças fugirão. asentaram as pazes dadas suas
dadivas e arrefens sahio o Capitão João Tavares dia de Nosa Senhora das Neves
por cujo respeito depois se pos ese nome a povoação e tomarão por patrona e
adevogada debaixo de cujo amparo se sustenta e ordenarão um forte de madeira
com as costas no Rio onde se recolherão, avisado logo o Ouvidor Geral se
alvoraçou logo toda a Villa e moradores destas Capitanias parecendo-lhes e
com razão e não já todos seus travalhos acabados e depois de muitas graças a
Deus sobre iso chegaram os linguas por terra com obra de quarenta Indios com
embaixada do Braço de Peixe e dos principais aos quaes todos o Ouvidor Geral
em sua casa agasalhou e vestiu e festejou vestindo os cabeças e avisando o
Capitão João Tavares do que devia fazer mandando-lhe mais vinte e sinco
homens deitada a sorte por os Espanhoes estarem ainda muito enfermos e
mandando-lhe vestidos finos para os principaes grandes minaos e todos muito
contentes os tornou a mandar e com grandes defesas não houvese nenhum genero
de resgate e de que o Ouvidor como experimentado he muito inimigo e com razão
que iso he o que dana e estraga o Brasil. |
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A segunda jornada do Ouvidor-Geral
e como se fez o forte Capítulo 15º Para se prefeiçoarem estas
pazes com os Indios e que Deus por indústria do Ouvidor Geral Martim Leitão
nos tinham feito me pareçeo necesario não se perder tempo antes importava ato
da afiaria irse fazer um forte e recuperar artilharia e asentar a povoação
por se os Franceses neste verão não virem fortificarem-no que Francisco de
Castrejon deixara para o que por todos asentados que ninguem podia fazer
todas esas cousas senão o Ouvidor Geral Martim Leitão ao qual o pediram e
requereram todos e elle aceitou por serviço de Deus e del Rei, e por bem
destas Capitanias e asim se partio para o Parahiba a quinze do mez de Outubro
do mesmo Anno com alguns amigos e seus officiaes e criados que fariam numero
de vinte e sinco de cavallo e quarenta de pe levando pedreiros e carpinteiros
e todo o recado necesario para fazer forte e o que mais cumprisse e chegou
aos vinte e nove onde foi grandemente recebido dos Indios e brancos que ahi
estavam e a os principaes que vierão uha legoa recebel-o abraçou hum, e hum
com grande festa e fazendo apiar os de sua casa os fez hir a cavallo e alguns
pello que tinham pasado com os brancos tremiam de maneira que era necesário
illos sustentando na cella com este triunfo os levou pelo meio de suas aldeas
bem vestidos com que lhes havia dado, com o que uns choravam e outros riam
cousa muita para ver e logo em esa noute se enformou dos sitios e
particularmente em segredo tinha incomendado lhe buscasem com todas as
comodidades necesárias para a povoação a Manuel Fernandes mestre das obras
del Rei, Duarte Gomes, João Queizada e outros, e o Capitão que todos estavam
para iso delle prevenidos em segredo maz encontrados nos pareceres dos sitios
ao outro dia o Ouvidor Geral ouvindo misa antes de sahir o sol, que
caminhando e onde nestas jornadas sempre lhe dicemos foi logo a pé ver alguns
sitios e a tarde a cavallo athe o Ribeiro de Jaguarippe para o Cabo Branco e
outras partes com que se recolheu a noute enfadado encomendando iso na manhaã
que vinha a nosa senhora devotamente foi Deus servido a sua interseção como
padroeira de aquella nova planta concluise que acentase naquella parte sobre
o porto aonde agora está a cidade planicie de mais de meia legoa muito chã de
todas as partes cercada de água senhora do porto que com hum Falcão se pasa
além he ribeira de água doçe entre elle e o porto que he singular e tão
alcantilado que da proa de navios de sesenta toneis se salta em terra donde
sahe hum poderoso torno de água para provimento das embarcações que a natureza
ali pos com maravilhosa arte e muita pedra de cal onde logo mandou fazer hum
forno della e tirar pedra hum pouco mais asima, maz perto com que visto tudo
muito bem e buscando mato daquelle sitio e tudo ruçado e limpo, a quatro de
Novembro se marcou o forte de sento e sinquenta palmos de vao em quadra com
duas guaritas que jogão oito peças groças uha arreves da outra e alicerces de
pedra e cal para cujo principio se fez ostra de pedra com duas juntas de bois
e com uha duzia de vacas que levou para insar a terra alem de muitas porcas
cabras e todas as creações com que procuravam afeiçoar os homens a terra e
certo que athe as galinhas que levava para si e doentes dos quais sua casa
era a botica repartio por todos e com os carros e trabalharem maus e bons com
seu exemplo que hum e hum os chamava de madrugada e apelidava a obra e
repartia huns na cal outros no mato com os carpinteiros outros nas pedreiras
e com os serradores barro e taipas porque os alicerces e cunhaes só o heram
de pedra e cal e o mais de taipa de pita de quatro palmos de largo para o que
mandou logo fazer oito taipais para todos trabalharem e era para ver a profia
e enveja em que os metia cevando-os com sua afavilidade e com trabalhar mais
que todos com o que duravam na obra de sol sem descansar mais que a hora de
comer em que o trabalho e continuação veio a ser tanto que todos desejava
adoecer como muitos fizeram para ter repouso chegando pois a obra em duas
semanas de serviço a estado defencivo logo lhe mandou por artilharia que
neste meio tempo com espantoso travalho e indústria por os búzios que para
iso levou se havia tirado do mar cem se perder peça que foi cousa milagrosa
só as camaras faltaram, mas com seis que ajuntou em Pernambuco e levava já
com este pretexto com dous falcões que foram por mar com os caravelões da
matalotagem se remediou o negocio, e depois por desastre se acharam lá mais
duas camaras e asim asentada a artilharia e feito o posivel ordenou por se
não perder tempo de que he muito inimigo, e o noso gentio senão apoiar como já
começava fose João Tavares e Pedro Lopes com toda a gente dar uha boa guerra
as fraldas de Capaoba e asim ficando-lhe somente ahi os seus moços e
officiaes da obra e Christóvão Luiz, e Gregório Lopes de Abreu; foram todos
os mais aonde andaram treze ou quatorze dias somente e tornarão com
destruirem somente quatro ou sinco Aldeas cuja vinda tão apresada o Ouvidor
Geral sentiu muito e logo determinou concluir o mais breve lhe foce posivel
pelo que em respeito tinha determinar-a saber- a obra e torre que fazia para
o Capitão sobre a porta do forte com duas varandas cousa nobre e uha grande
casa para almazem sobradado para agasalhado do Almoxarife. |
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Como o Ouvidor Geral foi a
Bahia da Treição Capítulo 16º Asim posto esto em boa ordem
athe vinte de Novembro deixou ahi Christovão Luis com os officiaes e gente
necesaria que foi mais da que convinha que João Tavares quando os dias atras
foi levou mais de cem homens, e elle se partio com oitenta e sinco, e sento e
oitenta Indios de noso gentio cousa asas temeraria o que todos lhe procuravam
estorbar por todas as vias com roncas de estarem decerto náos Francesas na
Bahia de Treição e com se fazerem muitos doentes e alguns de tantos trabalhos
e maos comeres o estavam desiso e com isto e com lhe amotinarem huns trinta e
sinco soldados Espanhoes que havia os quaes lhe chegarão a fazer
requerimentos sobre iso com o que se acendeo tanto o Ouvidor Geral de cólera
por também lhe não guardarem o devido respeito e se soltar hum de alcunha
Paes mas do necesario que já também ahi havia posto o arcabuz nos peitos ao
Capitão João Tavares por que o Ouvidor Geral o mandou tomar a ponta do forte
em presença de todos lhe mandou dar alguns açoutes athe nos acodirmos, porque
sabiamos quanto elle folgava de entonçe dermos e prometo a Vosa Reverendisima
que nese dia partimos e foi gentil mezinha porque não houve quem mais
boquejase fomos do forte dormir ao Tibere e dahi ao campo das ostras donde
nos ajuntamos com o noso gentio metendo-nos o Ouvidor Geral em cabeça que era
dobrada, e com seis alqueires de farinha de guerra que todos não levavamos de
comer para dous dias do que respondia com muita festa que o fosemos buscar
entre os inimigos pois niso e no forte o havia e para terra de gente viva
hiamos, e asim fomos dahi asas descontentes todos e pellos cabellos a agua
que chamão de camello e depois do sol posto chegamos ao Rio Mangape que são
grandes oito legoas com o que nós e os negros da fradagem hiamos muitos e por
respeito da mare ser chea e havermos de hir dar de noute com uhas Aldeas que
estavam perto da outra parte do Rio esperamo se convinha dar aquella presa
por os inimigos que haviamos achados atras na campina lhes não darem primeiro
aviso e asim pasamos sem sear imoídos do travalho do dia com os cavallos pela
redia e as mãos na boca por não soarmos como a mare deu lugar depois da meia
noute paçamos todos e por não nos podermos ver as Aldeas com a noute nos
deitamos ao som de um grande chuveiro que nos veio para de todo ninguém ter
repouso e com a presa de somente cobrirmos as çelas e a Largas esperamos a
manhaã e recado, e as dez horas demos em hum grande golpe de gentio que com o
seu medonho e apostumado hurro atroou aquella ribeira bastante a fazer
pasaram outros exercitos, e não oitenta e tantos homens em que entravão
dezoito de roins cavallos e ese pouco entio que todos não faziamos trezentos
de peleja e asim era para dar graças a Deus a confiança de Martim Leitão o
gesto com que ao hurro tornou dizendo temos o que buscavamos, a elles o qual
asim queria cobrir a cada hum como se todos forão filho se pasada aquela
primeira nuvem de frechas que Deus desviou de nos todos nos serramos em
esquadrão bem cobertos os poucos arcabuzeiros que havia com os vodeleiros por
sermos todos tão poucos que tudo se podia bem ordenar e asim remetendo o
Ouvidor Geral com os de cavallo que andavão a roda por o sitio dar lugar a
tudo e pasada aquella estropiada com alguns quinze arcabuzeiros que o
seguiram dando nos inimigos se espalharam elles pello mato e só obra de
secenta foram fazendo animosamente rosto diante de uha poderosa cerca que
estava a vista que era tao que certo nos asombrou a todos e a senão ver no
meio da briga em tempo que já a fumasa da continua arcabuzaria e grita, e
frechas não dava lugar a cuidar, fizera em todos maior aballo e começando o
Ouvidor Geral a repartir a gente em duas partes a tiro de arcabuz para logo
cometermos vimos alguns da vanguarda entrar pellas portas, ao que acodimos
todos vendo as abertas, e os inimigos vardos pela outra parte aonde uhas
grandes rebanceiras e brejos lhe seguravão as costas com o que se salvarão,
seguindo-os somente alguns do noso gentio e corredores brancos que todavia
sempre forão matando afora os que atras no recontro ficarão mortos, que não
foram poucos, nem é poçivel serem aqui lembranças do que cada hum fez porque
todos o fizerão honradamente ainda que nestes sobresaltos não faltam bons
entremeses, e as vozes dos roncadores com que ficão mais graciosos aqui
repousamos aquelle dia que todo se gastou em festas e contentamento de nos
vermos tão poucos e tão valentes com o que cada hum se prometia bastar para
todos os Pitiguares e certo que aqui esperimentamos como hum bom capitão de
ovelhas faz leõis e asim curamos os feridos noso gentio de que para melhor
nenhum morreu posto que muitos seguiram o alcance dos inimigos athe alta
noute que tornarão e nos acharão as portas da serca que era muito grande
repartidos vigiando por haver maos inimigos na Bahia da treição que estava
perto, e pello Rio Manguape em duas horas podia vir aos inimigos socorro de Franceses
e vendo nos tão poucos refazerem-se, maz recolhidos já todos repousavamos que
se hade entender sempre com boa vigia que niso foi o Ouvidor Geral sempre
mais prompto cobrindo de noute muitas vezes todas as estancias e tão severo
que nada lhe escapava, e por iso dizia elle muitas vezes que antes queria
poucos que em toda a hora os via que muitos e mais muitas partes onde a
soldadesca não he deciplinada e nem tem as partes necesárias. |
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De como chegamos a Bahia da
Treição e paso de noute milagroso Capítulo 17º Todo o outro dia gastamos em
ver esta cerca que era uha fortaleza muito forte que cuido nunca se fez outra
tal no Brasil e bem mostrava ser obra de Franceses porque tinha tres muito
grandes guaritas de quarenta palmos de alto de cima das quaes de cada uha
podiam pelejar quarenta homens e asim apapiavamos o padre Francisco Fernandes e eu muito a vontade fora tinha
sete cercas de rede uhas sobre outras em mil voltas em caracol que era um
labarito que se perdia homem nelle e armadas muitas aboizes de grandes
arvores que tocando-lhe um pasaro desarmavam e arrastariam vinte homens tinha
alguhas seis ou sete tranqueiras para berços, mas Deus lhe tirou o animo e
nos ajudava que então tudo não devia pois a christandade houve aqui
diferentes pareceres por ninguem querer chegar a baixo a Bahia da Traição
dizendo estarem lá duas náos e que com Franceses e gentio que já estaria
muito mais junto se não devia cometer que era tentar a Deus que desemos volta
com o feito e bastava tomarmos-lhe na barba a mais poderosa cerca que se
nunca vio, e nisto estavam todos maz o Ouvidor Geral vendo que se não armavam
a outra causa não quiz concluir e logo pela manhaã com desimulação e achaque
de correr o campo mandou a Duarte Gomes com sinco homens de cavallo e outros
tantos arcabuzeiros para os tomarem ancas comprindo e alguns quarenta Indios
aos quaes em segredo deu ordem lhe fosem descobrir a Bahia da Treição que por
lema hera dali quatro legoas e sucedendo qualquer cousa se recolhesem em
posto seguro e avisasem correndo, que logo lá iria e asim forão e no caminho
tomarão dous Indios e por se temerem de um que lhe fogio e lhes poderem
também sahir de uha não que com sua lancha viam somente se recolheram debaixo
de uha grande arvore e Duarte Gomes a redea solta tornou a avisar e chegar a
nos com duas horas de sol e como o Ouvidor Geral parece o esperava em breve
nos fez a todos partir dizendo que lhe acodisemos ou foçemos morrer com elles
e mais pois lá não havia mais que uha só não como se della por roim que fose
não poderá sahir tanta e melhor gente da que levavamos e com tanta multidão
de gentio basta não houvese senão encomendar a Deus por ao caminho com a cada
hum pode e tendo andado athe a meia noute com asas blasfemias contra elle de
quem todos a uha a renegavam porque qual chorava os filhos, qual a mulher e
elle que o ouvia, maz como fazia escuro mandava-se de uha parte para outra
pello não verem e outras vezes falava alto com outras para lhes fazer
vergonha e asim bem moidos do roim caminho que elle e todos fomos a maior
parte a pé chegamos aos companheiros onde tudo se gastou em nos fazer calar e
saber da mare porque haviamos de pasar o Rio Manguape da outra parte da qual
nos ou que a iso forão por vezes o medo cegava para não verem ou todos
estavamos arejados e contados do pouco sono e comida que neste tempo já era
farinha de guerra somente e pouca, e do muito travalho ninguém atinou com as
horas da mare estando hum tiro da pedra della e fomos demandar na boca do
manguape na maior força e asim ainda que alguns dos primeiros não mandavam
todos os mais foram nadando aonde foi cousa milagrosa não morrer nem homem
nem mulher por que proveio Martim Leitão que naquelle paso que seria um bom
jogo de barreira de largo andasem seis ou sete homens de cavallo dos quaes
elle foi o prmeiro de uha parte a outra levando de cada ves tres e quatro
pegados ao cavallo e a lança e muitos nadadores nos quaes se pegavam os que
não sabiam que foi espantoso trabalho por ser grande o escuro com um chuveiro
athe pela misericórdia de Deus se poram todos na outra banda sem se perder
cousa alguha salvo a bandeira de Gregório Lopes de Abreu Capitão da vanguarda
que se aqui por não saber nadar houvera de se afogar e não foi a peor desas
jornadas antes João Tavares e elle Antonio de Barros Rego e Francsco Pereira
e não todo, e pellos quaes o Ouvidor Geral sempre puxava e pelo seu meirinho
Hector Fernandes, Francisco Madeira, Miguel Ribeiro, João Nunes, Duarte
Gomes, Simão de Andrade, João Pamplona, o lecensiado Andre Magno de Oliveira,
Antonio Lopes de Oliveira, Gomes Martins e os de sua casa estes poucos eram
de cavallo que a tudo sempre supriram e asim demos muits graças a Deus por
nos livrar de tal paso sem nenhua perda do que o Ouvidor Geral andava dando
de parzer, depois de ouvir dizer que nunca cuidava que era para alguha cousa
e não então, porque na briga o som do arcabuz aviva os espíritos maz aqui era
peleja com os elementos que he guerra mais diferente da dos homens. |
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Como deram nos inimigos Capítulo 18º Pasados asim da banda d'além
que seria duas horas antes da manhaã por não sabermos ao serto quanto hera
dali aonde deviam estar a pavoção do gentio na praia defronte das náos que
era fama terem forte em terra com alguha artilharia que era o que mais
receavamos e faria dar presa ao Ouvidor Geral para com escuridão da noute não
vermos os perigos que aprogoavam em hum tropeo de gente de cavallo com alguns
arcabuzeiros de uha parte de noso gentio e os de pe da outra determinavam em
rompendo a manhaã acometer isto feito algum fogo em que brevemente se
enxugarão os arcabuzes nos fez logo tomar a praia que como athe então de nós
não foçe sabida sobe tantos travalhos nos pareceu tão compridas como
trabalhosa e a nos dar tanto acomodamento e presa com que aquecemos e nos
esquecemos do travalho fora elle muito maior maz hindo o Ouvidor Geral com
Duarte Gomes e Antonio Lopes de Oliveira descobrindo diante com três negros
da terra a fomos andando athe em amanhecendo aprontados os de cavallo; como
diçe para dar da parte do Norte e os mais do Sul remetermos ao forte que ali
tinhão os inimigos todos com grande grita onde matariam athe vinte indios se
o tomou vivo um grande principal outros muitos se deitaram ao mar por terem a
terra tomada, e recolherão a náo dos Franceses, que todos estavam recolhidos
com suas artilharias do dia de antes pello aviso que lhes deo o Indio que
fugio a Duarte Gomes, e ali estavam todos muito de sobreaviso e tinham
despregado tudo e so aquelles poucos desconfiados esperavam e porque a náo
com a claridade da manhaã nos começou a varejar na praia com a artilharia
vazamos todos a Aldea e povoação que estava logo asima a qual achamos toda
despejada maz com muitas farinhas feitas e favos que foi grande recreação com
os cajuzes fruta do mato que já começavam e asim a estancia dos nossos Indios
para lhe destroirmos todos os mantimentos e asolarmos aquella estalagem aos
Franceses, depois de não terem o Parahiba asentamos estar ali tres dias e
logo a tarde fomos todos fazer mandioca que he arrancar os mantimentos que só
os brancos fazem porque os gentios estes dias tudo he dormir esa noute
mandou-os o Ouvidor Geral lançar ao mar tres ferrarias que ali havia de
Franceses que foi cousa de importante tirallas aos inimigos que soltas os
cevavão os Franceses, repairando-lhe estes tres ferreiros que ali já eram
moradores suas ferramentas e esta foi a maior que se lhes podia fazer,
achavam-se aqui mais de secenta caldeiras grandes e pequenas, e facto e muita
ferramenta de que seu noso gentio carregou. Ao outro dia mandou o Ouvidor
Geral vinte e quatro arcabuzeiros na baixa mar da madrugada de sima do
arrecife que ficava sobre a náo metido na agoua dar uha tal sumiada com tres
ou quatro cargas ainda que sem lhes fazer danno, maz temendo pareçer que o
veriam a receber ao que viessem alguhas embarcações do Parahiba levaram
ancora e se foram por ahi abaixo caminho das Antilhas esbombardeando-nos
primeiro com a sua artilharia na praia se acharam alguhas molhadas de roim
pao brasil tão delgado como varas com as raizes que se queimaram e asim não
podiam dar melhores novas em França que a dos Annos pasados com isto ficamos
muito contentes por da terra fazer levantar uma tão poderosa náo que prometia
deitar de si quase cem homens. |
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Partida da Bahia da Traição
para o Trejucupapa Capitulo 19º O terceiro dia carregados os
Indios do esbulho e alguns mantimentos partimos hindo sempre ao longo da
costa e asim fomos outros tres com a lingua dos Indios captivos em busca do
Princepapo o maior principal dos Potiguares por ser muito grande feiticeiro e
indo ao quanto bem descoidados antes do meio dia parecendo-nos já não
achariamos inimigos gritaram da vanguarda Pitiguares e não se espantem
falamos desta maneira sendo tão poucos porque como as guerras destas partes
não nos matos sempre hiamos enfiado, por o roim caminho huns atras dos
outros, e asim ainda que poucos como não podem ser em fileira nem ordem de
guerra ocupam muita terra ao comprido por esta causa a grita e novas se
concertou cada hum em seu lugar e marchamos depresa maz por neste tempo vir
um soldado Espanhol dizer a Martim Leitão acodise que recuaba a vanguarda e
havia feridos em calças e gibão como iha tomou cham arremesão a João Nunes e
uha no delta a hum Indio encomendando a gente a Gregório Lopes de Abreu e
Antonio de Bairos Rego. feitos e muito apercebidos de dias do seu feiticeiro
que por desastre se nos acolheu em um cavallo que lá nos ouve há muitos
annos, curados os feridos que houveram alguns e nenhum morto por a viptória
ficar com dobrado gosto nos desviamos quasi sol posto com o que achamos na
Aldea que tudo foi uma bárbara pobreza por nos não levarmos nada que como
hospedes do Ouvidor Geral que em todas as jornadas nos levou sempre na sua
tenda tirando a primeira que foi de maior aparato, sou boa testemunha de tudo
e para milhor o feri com meu sangue proprio que por as feridas ser no peito
do pe deu trabalho. Não faltou para de toda esta empresa do Parahiba ser
trabalhosa e honrosa o sangue da Companhia, Ali estivemos ao outro dia e por
serem doze legoas quem do Rio Grande aonde tivemos novas sem já todo o gentio
pasado da outra banda, que como senhores de quatro sentas legoas desta costa
não hera posível esgotal-os que este mal tem este gentio ser o mais e o mais
unido que quantos houver no Brasil, e asim daqui nos tornamos ao forte aonde
fomos recebidos com muitas festas e tornou o Ouvidor Geral a continuar nas
obras |
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A vinda do Capitão Moralles do
reino e como se aviou o Ouvidor Geral para ir por mar Capítulo 20º No fim de Fevereiro seguinte
vieram cartas ao Ouvidor Geral Martim Leitão del Rei se haver por bem servido
no que fazia na povoação do Parahiba e ordenou para se pagarem os gastos que
ainda athe o Abril que veio carregava sobre elles as quaes trouxe hum Capitão
Espanhol coxo com sincoenta soldados Espanhoes, e para recolher asim os que
cá ficarão os de Francisco de Castejon que foi grande bem ainda que se diso
não surgiu effeito por elle ser cousa pouca e asim avisado em Pernambuco
partio a doze do Mez de Abril seguinte para o Parahiba e haver de estar a
obediencia de João Tavares Capitão do forte conforme a sua patente e todas a
do Ouvidor Geral , mas o coxo tanto que la chegou deitou João Tavares fora do
forte e a os Portugueses e os tratou de maneira que alvoroçou tudo e
amotinado o gentio das Aldeas que todos os dias se iha queixar a Pernambuco,
e sobre avisarem a este Capitão Castellano que se chamava de Francisco de
Moralles que parecia mal o tomar o forte a quem tinha dado mensagem delle e
que lho tomase se desentoou em palavras contra o Ouvidor Geral esquecido de
sua obrigação e de quantos gasalhados e mimos em obra de um mez e honras lhe
havia feito em Pernambuco e asim se enfrentou logo com elle e com a Camara e
contados os Portugueses que houve muitos requerimentos o tirasem de la e
mandase a elle por muitos e roins excesos que sempre nelle foram crescendo
com os roins conselhos que lhe mandavam de Pernambuco inimigos do Ouvidor
Geral e das boas venturas do Parahiba, a que todos os potentados do Brasil
não tinhão paciência e cadeia de inveja blasfemavam do Ouvidor Geral e
procuravam atalhar o infamal-o asim ca como no Reino e foi pasmo com estas
invejas de cada vez mais crescerão e de outra parte me não espanta pois o
Parahiba crescia de bem em melhor tudo o Ouvidor Geral foi desimulando e
pairando athe o fim de Setembro do dito Anno por que aos vinte e sete dias
delle lhe veio nova do Parahiba, e cartas que avisavão serem chegados à Bahia
da Traição sinco náos Francesas com muita gente e monições determinados a se
ajuntarem com os Pitiguares para combaterem e asolarem o forte do Parahiba
com as quais cartas vinha um grande requerimento do Capitão Moralles e
moradores asim elle Ouvidor Geral como ao Capitão de Pernambuco e Camaras os
focem socorrer: recebido este requerimento fez logo Martim Leitão ajustar no
collegio ao Capitão de Pernambuco, Camaras e officiaes da fazenda e os mais
nobres e ricos da terra aonde por todos foi asentado/ antes de crescer mais
aquella ladroeira e sahir dali algum grande corpo de Franceses que junto com
os Pitiguares nos deitasem do Parahiba/ com vir muito acodir-lhe, e que
ninguém o podia fazer se não o Ouvidor Geral Martim Leitão como dantes tinha
feito, e asim todos juntos lho pedirão e requererão em nome del Rei e elle
aceitou ordenando mais que fosem tres náos e os caravelões que houvese e
sento e sincoenta homens de peleja afora os do mar e alguha gente de cavallo
por terra que se juntaria com alguns cento de pe que haveria no Parahiba para
que lhes desem por terra e por mar uha boa guerra e que as náos pelo que
importava ao serviço del Rei e trato do Brasil se aprestasem a não haver mais
que duas roins náos se começou dar ordem para se fazerem repairos para
dartelharia por na Capitania não haver cousa com cousa e fizeram-se os
repairos e consertouce artilharia todas e começaram com as náos a levantar
caravelões e por Francisco de Moralles se querer vir neste tempo do Parahiba
como veio lhe escreveo Martim Leitão pedindo-lhe tal não fizesse e que chegando
lá o acomodaria e serviria em tudo como sempre o fizera e quando de todo em
todo se quisese vir neste tempo do Parahiba não houvese os soldados del Rei,
mas nada bastou para se deixar de vir e trazer os soldados, e persuadido de
alguns de Pernambuco invejozos e inimigos do Ouvidor Geral largou o forte e
se perdeu e estragou |
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Como o Ouvidor Geral partiu do
Parahiba para o Capaoba Capitulo 21º Da cidade onde o Ouvidor Geral
Martim Leitão deixou Pedro de Albuquerque por Capitão em quatro grandes
jornadas se foi dormir a grande cerca de piena cama que he hum grande e
principal pitiguar, aonde Duarte Gomes havia hido por mandado do Ouvidor
Geral o Outubro atras e depois de lhe suceder muito bem ao recolher lhe
mataram oito ou dez homens, que foi a maior perda que esta empresa do
Parahiba teve depois de correr por Martim Leitão e que elle em estremo sentiu
porque alem das guerras que todos estes annos lidava por sua pesoa sempre lhe
mandava dar cada anno quatro e sinco saltos, asim pello Capitão João Tavares
como por Duarte Gomes e outras pesoas com que os mais desatinavam e lhes
fizeram largar mais de quarenta legoas a roda do Parahiba muita jornada foi
infinito o trabalho principalmente da agua que não havia senão de muito roins
propos branca e pouca e tão fadorenta que era necesario com uha mão tapar o
nariz e com outro a beber desta cerca fizeram uha jornada direitos a serra do
Copaoba pelo que inda de todo faltou a agoa que no Brasil só ao longo do mar
há e no pelo sertão há muita falta e ese he o maior travalho que nelle se
padece e os das calmas, porque quase todo o sertão é escampado e asim são dos
maiores do mundo e quase a peor guerra delle e asim andaram todo aquelle dia
desatinados por agua e em se pondo o sol chegarão a uha bem roim e pequena
alagoa aonde o nosos gentio já todo estava metido que ese he o seu costume
lavarense e asim não parecia mais que alguha lama que se chupava, ali se dormia e por haver inteligencia
das nosas espias haver junto Aldeas de inimigos se madrugou para dar nelles
antes manhaãs e com asas trabalho por que se enganão as espias não chegaram a
primeira senão em amanhecendo e por o noso gentio dar o seu hurro primeiro
que entrase fugirão alguns, ainda que fez incredivel matança e tomaram
setenta ou oitenta pesoas contra a vontade do Ouvidor que não queria senão
que os matasem e mandou seguir o alcance por uha parte e outra e foi tao que
durou mais de uha legoa athe outra grande cerca aonde foram repousar na qual
tudo foram corpos mortos dos inimigos e dos nosos nenhuns salvo quatro ou
sinco feridos , nesta grande cerca quis o noso gentio descançar e asim era
necesario para o grande travalho do caminho que tinhão pasado, por acharem
Rio de Água que então era o maior bem do mundo e he costume dos gentios sobre
grandes matanças como estas fazer vinhos que chamão fazer suas festas, e asim
quis o noso aqui fazer e repousaram aquelles dous dias ainda que logo sobre a
agoa começou de haver briga por começarem de acodir inimigos anol-a defender
ajodados dos sitios por que esta Capaoba aonde já estamos he toda grutas em
altibaixos porque he outeiros athe as nuvens que athe so se sobe por elles
com travalho, e abismos baixissimos cousa não vista em outra parte do Brasil,
e estas tres ou quatro legoas destes outeiros contra o estillo das outras he
singular terra, e os inimigos por sima delles corrião como gamos e se
ajudavão muito e he muito boa terra que todos os vales destas trez legoas que
ao mais serão em redondo são muito boas contra a regra geral da terra salão
forte que dará muito bem tudo: havia por conta nesta Capaoba sinco sento
Aldeas de Potiguares todas uhas pegadas as outras e avista seus seteiros era
de infinidade de mantimentos e algodões. Ao outro dia pela manhaã começou a
creçer a briga sobre a agoa ainda que os nosos tinhão ordem não focem senão
juntos e a uha hora certa buscal-a e a dar de beber aos cavallos ao que
sempre hião dez, doze arcabuzeiros de guarda, toda area crescerão muito os
inimigos tinhão ja feito uha caiçara sobre ella da qua a noute a volta sahio
o Ouvidor Geral fora de sua tenda a ver o que era por um negocio suceder ao
seu braço porque se agasalhou forão do logar de baixo de uha arvore e vendo-o
lá forão muitos, e dando ordem foçem Duarte Gomes com mais gente e
esmanchassem o que haviam feito aquella noute e os inimigos antes que mais
cresce-se com que os deitarão dali por nos começarem a frechar ja a gente
ajuntou com o Braço que na tarde lhe lançasem uha sillada por sima tomando-se
primeiro a travara briga em que bem levados lhe descem nas costas, e saindo a
iso o Braço a tarde se alvoraçou o arraial dizendo estaria muito corpo de
inimigos sobre a agoa sahindo fora o Ouvidor Geral mandando não sahise mais
gente que aquella que elle nomease por que se começavão desordenar por da
outra parte do Rio na ladeira andarem dez, ou doze nosos muito apertados que
não ousavão de virar as costas e carregavão sobre elles e ainda que os hião
levando dos nosos, os mais delles vinhão de lá afrechados e feridos de
espingarda, que também os inimigos tiravão muito boas; estando o Ouvidor
Geral vendo isto e esperando como arrebentavão com asillada do Braço de Peixe
chegou recado seu que era em outra dos inimigos que lhe acodesem e isto a
tempo que tinha ja o Ouvidor Geral mandado que fossem sete ou oito de cavallo
que ainda em aquellas fraudas se podião ajudar a detellos e recolher os nosos
e os que asim mandamos forão João Queixada, Antonio de Albuquerque, Diogo de
Abreu e outros com Francisco Pereira que só com Simão Tavares pasarão alem e
deitaram fora os inimigos e recolherão os nosos com hum já morto e outros
quase e muitos feridos principalmente das espingardas, e Francisco Pereira
muito peor que a fez a que como tão bom cavalleiro como elle he, a João
Tavares foi recolher o Braço de Peixe bem neste tempo a não haver grande
recado na cabeça serto se me dava algum grande desbarate estas tardes
seguindo-se a gente alvoroçou pra fugir com desanimo ja por salteados de medo
e asombrados de se verem sento e quarenta homens com quinhentos frecheiros de
noso gentio tão longe aonde nunca senhou de hir branco em terras que ninguem
sabia, e este foi milhor remedio e causa de não fugirem que por respeito do
não suceso que nos mezes atras havia suçedido a Duarte Gomes andava gente e
muito mais o gentio mui desmaiados e mais com se verem em tal terra em tanta
multidão de inimigos e asim começou de entrar hum medo espantoso em todos que
não havia valer, e a noite foi avisado o Ouvidor Geral em segredo por João
Tavares estavão vinte e sinco ou trinta homens ajuramentados, tudo gente muito
honrada para fugirem, os quais aqui/ por suas honras não nomeio, nisto acodio
o Ouvidor Geral com os juntar e lhe fazer a todos uha fala de mil esforços e
como para o outro dia tinhão das caixas do gentio ordenado muitos paveses de
tras dos quaes hião muito seguros e escolheo os melhores arcabuzeiros para
que se não perdese tiro, e repartio a gente melhor principalmente os desta
conjuração espalhou todos dando carga as cabeças comando outros para sua
guarda com que lhes desfez a roda e se asentou se de pe pella manhaã no
inimigo com boa ordem que a este tempo nos tinhão com tres caiçaras á vista
cercados e são tantos que havia homem que contava por aquellas ladeiras que
atro e sinco mil fogos com o que e verem mortos e feridos que nas guerras do
Brasil se não sofre não havia paciencia nem quem ousase faltar, pregou de
noite o noso padre Baltezar Lopes pella lingua ao gentio e mamelucos dos
quaes nasce o mal e todos vigiarão melhor que nunca de que se não podem
escrever as particularidades, que viremos a danar e algum basta que toda a
noite andou o Ouvidor Geral de porta em porta nas vigias aos fazer callar que
era vergonha o que lhes o medo fazia dizer e fazer. Das caixas que se acharão
se fizerão dez paveses a todos com cairo espinho e como melhor poderão com
que vendo se pella manhaã bem ordenados se asinou a gente e forão buscar os
inimigos deixando queimado tudo, como sempre fizemos a todas as cercas e
Aldeas que tomamos os quaes estavão a vista entre tranqueiras que elles
armarão nos peores pasos uhas diante das outras, que muito poucos bastavão em
tais pasos se Deus não nos ajudava. Mas posto em ordem o noso exercito
comesou a marchar para os inimigos e por na primeira cascara do Rio haver
detenção pella resistencia que elles fazião se pasou la o Ouvidor Geral e
dando-lhes muita presa como quem entendia que niso estava a importancia e não
em coidarem e com sua chegada se levou sem nos ferirem pasou e com a mesma
furia arremeteram a segunda que era entulhada de terra em huma valle muito
mais forte, e asim foi necesario chegar o Ouvidor, e por a gente nomeiada nos
postos e lançando uha boa manga por um outeiro acima com que os asombrou
muito mais, e sentindo grande volta no baixo vendo os inimigos trez mangas da
nosa gente se asombrarão de todo que hirem na terceira cerca pararão ainda
que não sobiamos a ella senão de pes e mãos e a senão terem lançado as mangas
sempre custava mais que foi gentil ordem do Ouvidor Geral e grande avizo que
neste tempo trabalhou infinito athe cançar trez cavallos porque queria ver e
estar presente em toda a parte e asim nos ajudou Deus e os deitamos
seguindo-os mais de meia legoa hindo-os sempre picando com alguns mortos athe
chegarem a sua Aldea e onde fizerão grande resistencia fazendo alguhas voltas
tudo por salvarem as mulheres e filhos que ali tinhão com que o negocio
esteve empeso porque trez ou quatro vezes os levarão e nos tornarão a levar
em ondas athe que chegou o corpo da nosa gente com o Ouvidor Geral e
carregando rijo os levarão de todo e não veio a tal tempo sempre a nosa
vanguarda pasara mal daqui lhe fomos aquele dia destroindo trez ou quatro
Aldeas athe nos hirmos aposentar em hum alto maz tudo era já decidido e dali
viamos trinta e tantas a roda em menos de uha legoa que todos começarão de
andar, aqui repousamos aquelle dia e outro fornecendo-nos de mantimentos. |
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Como destroida a Capaoba foram
ao Tujucupapo, aonde tiverão a maior briga de todas Capítulo 22º Daqui se partio em busca do
Tujucupapo que o Anno atras nos fugira, e caminhando dous dias asim virando
abaixo ao mar ao terceiro, pella manhan parecendo-lhe não haveria inimigos
deu a vanguarda em uha mui poderoza cerca donde por aquelles valles começou a
retumbar a tom das arcabuzadas que pella fineza da polvora melhor do que a
nosa e o amiudar dos tiros entenderão ser corpo de gente com socorro de
Franceses que todos receavam e trazião diante dos olhos e asim era que o não
vindos das náos, a isto não havia acodir por o caminho de nenhuha maneira dar
lugar senão hirem uns tras outros como se acostumava a por mais presa que se
derão por na dianteira sentirem grande volta não havia remedio, e também por
aparecerem por outras partes a roda inimigos temerem outra tal a retaguarda
que trazia Mice Hipolito, Pedro Lopes e asim lhe mandou o Ouvidor Geral que
tocasem o seus a tambores e trombetas com que se tudo alvoroçou: indo nisto
vierão dar recado ao Ouvidor Geral acodise a vanguarda que estava desbaratada
e para dar volta e que na cerca havia Franceses com bandeira e tambor com
muitos Pitiguares e não tendo duvida que muitos se souberão a terra com tal
nova virarão as costas mas estavão já por ella tão adentro que não hera
pocivel e muito peor o noso gentio que estava todo tão cortadisimo de medo
que se apinhavam com nosco, e todo houvera de fogir e chegando o Ouvidor
Geral a cerca achou a bandeira do Capitão João Tavares que o fez aqui tão
animosamente como sempre sento que foi espantosa, e susteve todo apeso,
porque a sua ilharga tinhão morto tres homens e todos os mais forão tintas de
seu sangue e alguns com piadosas feridas de pelouros de cadea que as tinhão
escaladas e com tudo sempre sustentou a sua bandeira pegado na cerca em uha
fronteira na qual elle e o sargento Diogo Avias espantoso soldado que nesta
jornada houve quatorze frechadas, cada um tinha ganhado sua seteira ou
bombardeira aos inimigos tendo as espadas por ellas metidas apesar de lhes
darem com muitos paos, e pedras e fogo e outras muitas cousas que lhe
lançavam por sima que sempre os matarão e ao Alferes se Deus ali lhe não
deparava tres ou quatro troncos de arvores em cada hum dos quaes se empezavam
um e dous, os quaes as arcabuzadas não deixavam aos inimigos subir asima e
cobriam os troncos aos sobre ditos que todos os mais já não estavam para nada
e tudo quaze desbaratado, e ainda estes poucos que amparados dos troncos e
arvores ou cercados com o chão se defendiam amparando a rodeleiros as vezes
hum e dous arcabuzeiros, que era pratica antiga do Ouvidor Geral que aos não
misturarem asim não pelejar já nuca arcabuzeiro com a multidão das frechas, e
desta maneira e com esta ordem animosamente ainda que com immenso trabalho e
perigo da vida entretinhão aos inimigos e athe o noso padre Baltezar Lopes me
confeçou se dera por morto e com uha rodela da India cobrira a si e a outros
cozidos em uha vigueira da terra , foi este hum travalhoso paso e o mais
arriscado e perigoso termo que estas guerras do Parahiba, e nem sei se do
Brasil, nunca tiverão porque rialmente para consigo se não foi o Ouvidor
Geral que o não mostrava no rosto todos neste paso se deram por concluidos. Hera lastimosa cousa ver o
desbarate que iha em todos e alguns cavallos por ahi frechados e arcabuzados
sem haver quem os desviase nem ainda tivese acordo para usar das alcancias
que havia pedaço o Ouvidor Geral havia mandado aos dianteiros por Diogo Nunes
mercador e pasado o conflito por ahi se acharão depois perdidas e não sahirão
os inimigos da cerca aos que asim estavão forão pellos ditos arcabuzeiros que
sempre lhes tiravão em roda viva os impedirem e também o Capitão Joao Tavares
que tendo arvorada a sua bandeira na porta fronteira com quatro ou sinco que
se com elle achavão cobertos de suas adargas e no dellas e cozidos com o chão
e cercados dos inimigos tinhão metidas as espadas pellas seteiras ou buracos
com que os tapavão e se defendião já com dezesperação por que lhes não
convinha bulir-se nem afastarem-se para nenhua parte, e prometeo Deus também
a si que a sahirem em tal tempo os inimigos acabava-se tudo, e elle por sua
misericordia ordenou socorrer deste tempo ao Ouvidor Geral que embaraçado com
o caminho e noso gentio, e brancos que remavam athe este tempo lhe não foi
pocivel chegar por mais que o procurou havia mister mil olhos e linguas para
notas e declaras este paso em que chegou Martim Leitão que apiando-se e o que
com elle hião e começando de animar a todos quis lançar uha manga por sima
por hum espeso mato de roins espinhos que os nosos Indios começarão a abrir,
mas não haviam quem se atrevese a bolir consigo ainda que hum e hum os
animava e chamava por seus nomes com palavras de honra que alguns montavam
bem pouco neste labirinto ou confusão porque ninguem com os gritos dos negros
inimigos e nosos estrondo das espingardas e de muitos feridos que a cada paso
cahião se entendia nem ouvia o que se ordenava nem mandava antes parecia
declinarem as cousas a se acabar tudo: e depois de muito bradar e avançar o
Ouvidor por ordens e cousas que todos bem mal compriam apesar de grandes
chuveiros e nuvens de frechas e pelouros que dos inimigos nunca se parão
lançando alguns poucos consigo que ainda se forão diminuindo e ganhando como
podiam que a verdade não havia romper, e era quasi temeridade a que o Ouvidor
Geral cometia, maz della nos resultou o remedio e asim chegando com travalho
com sinco ou seis que por vergonha o não desempariaram pella parte de baixo e
maior mato, a serca que por aquelle lançou confiados os inimigos na espesura
do mato era mui baixa e entulhada de terra e palma começarão a desfazer ainda
que os inimigos logo ali acodirão de dentro com uha espingarda e muitas
frechas, com que feriram o meirinho da aliçada Heitor Fernandes e outros
contudo Martim Leitão foi o primeiro que chegou e rompeu a cerca cortando com
a espada os sipoós e cairo com que atan a madeira e fazendo buraco por onde
se meteo; aqui no afastar dos paos ao entrar deram de dentro ao Ouvidor Geral
com hum pao feitiço na mão direita com que travalhava porque coberto com
adarga tinha a espada na esquerda, que lhe arrebentou da pancada o sangue
pellas unhas que com a indignação desta ferida o bem coberto com adarga ante
os peitos se lançou dentro com Manoel da Costa que o acompanhava fazendo
porta aos outros que o seguirão e entraram devagar que neste tempo elle
estava dentro de todo servido e tomando as mãos porque vendo os inimigos sós
dous homens dentro derribaram de duas roins frechadas a Manoel da Costa, que
cuidando serem pelouros e deitaram a carapuça darmas fora da cabeça ao
Ouvidor Geral com duas frechadas ainda que lhe fez Deus bem ficar pendurado
pelo rebuço de diante e com muitas frechas pregadas na adarga e pellas pernas
e braços que o não feriram por hir bem armado pos o joelho no chão para se
desembaraçar das frechas e cobrir a cabeça ao que acodindo golpe de gentio
para tomarem as mãos e sem falta lhe valeo aqui não no quererem matar pello conhecerem
e desejarem leval-o vivo para testemunha da sua victoria triunfo e gloria de
sua valentia e nome e elle vendo-se na ultima transe da vida se levantou
furiosamente e chigando-se a Manoel da Costa seu amigo e natural de pontes de
lima para o defender os fez afastar por verem tambem a ese tempo entrar já
outros dos quaes o primeiro foi o Alcaide de Pernambuco Bartholameu Alverez
feitura delle Martim Leitão que bem lhe pagou ali e o ajudou como mui valente
e esforçado soldado que he de Africa e outras partes que andou o Ouvidor
Geral coberto de frechas e dos inimigos que chigaram a lhe dar a mão tente
que andou agiolhou em uha coxa de que despos manquejou muitas vezes com a boa
ajuda do Alcaide ambos tendo hum com o outro levarão os inimigos e os forão
enxotando que com verem carregavam já por um terço que vinha mais alto da
outra parte da cerca com uha manga de alguns arcabuzes que o Ouvidor ordenou
logo ao apear do cavallo e hirem entrando apos o Alcaide ourtos forão os
inimigos despejando de todo e os inimigos da fronteira onde pelejava João
Tavares também afrouxarão logo sentindo já os nosos da parte onde pelejava
Martim Leitão dentro na cerca e onde logo entrarão todos com a temeridade que
asim se chamarão os nosos ou boaventura do Ouvidor Geral que soube buscar em
tal presa e tempo aquella parte por onde entrou com o que os inimigos
desatinaram de todo, quando dentro o não puderão tomar as mãos como
pretendiam ao tempo que conhecerão pellas armas e pella cutilada que tem na
cabeça pella qual entre elles he hum famoso o nome do Capitão da Cutilada e
elle reconfeçou depois em conversação que fora aquella a maior presa em que
se nunca cuidou ver porque ver-se entre tanto gentios, e arremeterem a profia
a elle com tantos alaridos e vesagens, e lembrar-se como deixava fora tudo
asolado bastava para não ter pes nem mãos, e a isto dis elle que nas maiores
presas dobra Deus o acordo e animo e faz maiores merces como a que lhe
aconteceo, e ainda dos nossos correo maior perigo porque não deixavam depois
delle estar dentro de tirar de maneira que da fumaça dos que fogiam de dentro
e dos miutos tiros de fora de que alguns pasavam a cerca e os mais dando
pellas casas palhoças dos negros era tanto o fumo da palha por dentro da
cerca e Aldea que não viam huns aos outros e com neste paso o Ouvidor e o seu
Alcaide somente andavam dentro, e Manoel da Costa com as costas huns nos
outros se chigavam as casas dando lugar ao gentio despejar o que elles faziam
com toda a furia por todas as partes e para os trez animosos companheiros
escaparem do perigo das nosas espingardas de fora mandou elle Ouvidor Geral
ao Alcaide gritase victoria, com que se acabou de arrasar tudo, que não
alegria nem nenhua igual a esta palavra em taes presas asim sento entravão os
nosos huns por uha parte outros por outra, que os Franceses ao entrar do
Ouvidor Geral fugirão todos e os nosos ninguem tratava senão de se abraçarem
huns aos outros com festas e lagrimas nos olhos da merce que lhe Deus fazia
os quaes seguirão pouco os inimigos porque pasada a furia da peleja todos
tinhão que curar e fazer consigo asas porque se acharão quarenta e sete
feridos no arraial e tres mortos, na cura dos quaes andou provendo o Ouvidor
Geral com muita vigilancia e caridade porque para tudo iha apercebido e athe
as tres horas que mandou niso com o surgião não comeo nem bebeo sendo lhe bem
necesario porque toda a noute antes não dormira e toda a manhan trabalhou
muito principalmente das nove horas que se começou abriga que durou mais de
duas horas na qual morreu infinidade de gentio que elles levarão as costas
como costumam fazer porque os não achamos; aqui também morreu o Alferes
Frances que na cerca ficou estirado com a sua bandeira e tambem que hoje esta
no Parahiba foi este hum honrado e famoso feito darma em que os negros
inimigos appelidados dos desbarates que lhe tinhamos dado na serra meteram o
ultimo de sua potencia em nos tomarem já cansados e com algun feridos e
mortos, como atraz digo, e já gastados de polvora e mantimentos e tambem
confiados nas outras victorias que não topariamos tamanha aventura que fora
muito maior desaventura ese socorro que chigou aos inimigos e deu neses
poucos da retaguarda que entrados os dianteiros e mais gente na cerca estavão
ainda fora e isto acodirão todos deixando os feridos como puderão e foi
espantosa presa e afronta, porque não acabarão de todo defender de vista os
que levavam diante quando chegou este socorro por detras que avir mais sedo
um pouco. Espero ou antes de entrarmos a cerca não houvera nenhum remedio mas
Deus he bom e sempre ajuda os seus e mais as causas que se fazem sem respeito
nem interesse como estas guerras do Ouvidor Geral que so niso dizião punham
toda a sua esperança. que não havia Deus de faltar a tanto serviço seo a del
Rei e bem de seus vasallos com se seguia a todos os daquellas Capitanias do
desbarate destes Pitiguares em que noso Senhor milagrosamente sem gente com
tao pouco custo sempre ajudou e guardou principalmente neste dia e presa dos
inimigos que desbarataram e da sillada que enxotados os dianteiros arrebentou
com grandes alaridos e gritos por detras que foi cousa medonha e mais para
tal tempo maz com a resposta que lhe demos que já mais de animos victoriosos
que de obra porque não estava a gente para nada fogiram como vierão e asim o
tinhão feito seus companheiros como. Heram tantas e tais as feridas
de pelouros de cadeia com que os Franceses que com os negros estavam na serca
tirarão que todo o restante do dia se gastou na serca dos feridos e por não
haver já mais que trez botijas de polvora e necesario trazer nove feridos
daquelles em redes que não podiam vir nem terse em besta fora muitos que
vinhão a cavallo que todos andavam a profia de os trazerem nos seus no
remedio dos feridos e de os trazer foi o Ouvidor vigilantisimo e mui caridoso
e asim por estes respeitos e inconvenientes que havia a se porseguir mais
alguha que o Ouvidor Geral determinava ser infinita se acertou queimase o pao
que se ali achou e voltasem dali por outro caminho, e todos inda que
victoriosos foi a noute enfadonha porque nos viamos mortos, feridos e
desbaratados e com pouca polvora ainda que isto da polvora não sabião tres
pesoas do arraial e tão longe de casa entre tantos inimigos e com sete náos
francesas entre elles no porto da Bahia da Treição que lhe darião o sento e duzentos
arcabuzeiros cada vez que quiserem e mais agora que ião feridos e magoados da
perda do seu alferes que era valente homem e da bandeira e tambro, basta
todos tinhão bem cuidar só o Ouvidor Geral era o que festejava e que não
consentia malenconia que dizia elle ser traça que mais gasta o animos fortes
que tudo e os consome, e asim com muito rijo visitava e corria a todos, e nos
ordenou para partir pela manhan cedo como fizemos em boa ordem a cerca
encomendado-nos todos muito a Deus e ao Anjo São Gabriel e a Bemaventurada
Nosa Senhora das Neves invocação do Parahiba aonde o Ouvidor Geral prometeu
um frontal de Damasco e cortina de linho que lhe logo mandou de Pernambuco, e
asim deixando o Copaoba destroida que então era a gadelha e força e sustancia
dos Pitiguares, voltamos buscando o caminho do Parahiba com asas trabalho
guiados pelo sol porque ninguem sabia onde estava marchamos o primeiro dia
com grandisimos trabalhos principalmente do Ouvidor Geral por respeito dos
muitos doentes e feridos, o puxarem então todos mais por elle e asim nos
agasalhamos ao longo de hum veleiro pequeno aquella primeira noite da jornada
como cada hum podia. |
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Da vinda e tomada do Ouvidor
Geral e dos nosos da Copoaba Capitulo 23º No segundo dia de caminho
marchado em amanhecendo nos salteou o gentio por duas partes a pavor como
iamos mas rebatendo-os fugiram com seu dano, e nenhum noso. Na noite seguinte
por sima da Bahia da Treição estando aposentados em uha alagoa levantando-se
o Ouvidor Geral no segundo quarto/ como costumava/ a correr as vigias achou
que todas dormiam senão as dos Espanhoes e acordados todos se foi a sentar
nas redes do padre Baltezar Lopes que estava deitado estando praticando com
elle por pasarem o enfadamento de tão roins noutes sentirão rumor do gentio e
chamando a iso os vizinhos ouviram disparar um pedaço contra o mar uha grande
arcabuzada, e logo outra, e outra e cento que alvoroçou muito todo o arraial
vendo-se em tal terra que ainda não sabiao onde estavão, o que depois de Deus
foi cousa de o noso gentio não fugir como logo em tais pressa costuma, e tão
carregados de doentes sem saber o caminho basta grandes termos houve aqui em
que se asas mostrou o Ouvidor Geral fazendo pregarão noso gentio esforçando
os brancos e que morresem como homens, que nesta determinação hera Deus
quanto mais que não havia para que temerem a belitragem Francesa e em terra
donde cada hum delles era para quatro pois o nosos gentio bem vião como
estava pois que sempre levarão a melhor dos Pitiguares não havia que receiar
que aquellas e não os próprios que lhe sempre fogirão aos quais em suas casas
e sitios, e fortes haviam desbaratado pelo que elle lhes segurava a victoria
e que aquillo que ouvirão não era mais que arroncar para lhes fazer fogir o
gentio e pollos em desbarate e que então e não em outra conjunção o seguiram,
pelo que elle tomava em si a retaguarda e o segurava com a ajuda de Deus, e
ordenado tudo e repartidos os doentes esperavam pela manhan em uha resoada
cerca de rama com que se cercarão todos com muitos cantares e festas e era
muito para ver como as curas asentavam a trabalhar e o gosto com que o
fazião, no que amanheceu um fermoso dia sendo os de antes chuvosos e com
muito boa ordem sahirão dali ficando Martim Leitão na retaguarda de traz de
todos com asento de pasar e outros principaes de noso gentio que pelo haverem
athe o Braço de Peixe mandou lá ficar os filhos e asim viemos as campinas de
sobre o Rio Mangoape, com que em todos se dobrou o contentamento com muita
festa já quaze noute nos recolhemo sa agua do camello donde a duas jornadas
chegamos ao Parahiba aonde todos foram recebidos como merecido: as novas
desta guerra foram muito grandes por toda parte e foi ella muito para iso que
se ousarem hir os brancos onde forão hera espanto quanto mais tão poucos e
estando os Pitiguares tão socorridos dos Franceses de que tinhão entre si
tantas náos, contra as quais logo naquella semana se aviou o Ouvidor Geral
para por mar hir a Bahia da Treição dar nellas, que a fama desta guerra e
novas que os seus della trouxeram e do pao todo ser queimado se forão lgo
todas desaviadas esta foi a maior e mais arriscada e perigosa guerra e de
mais importancia que nunca se la deu e mais por se dar logo sobre o salto que
os Franceses fizeram na Aldea do asento de pasar, e sobre o desbarate de
Duarte Gomes, e informados também os Franceses dos captivos que tomarão em
este salto da determinação que se lhes dar por mar e terra como já tinhão
visto da terra aonde e como nunca coidaram que asim os segravam os
feiticeiros nunca hirem cavallos nem branco ao Copaoba tendo o do mar a
porta, por o Ouvidor Geral ter mandado vir os caravellões com que de noute a
remos os determinava de saltar por já hirem faltando as moções para náos
grandes virem de Pernambuco ao Parahiba se acolheram os Franceses com as náos
vazias com que os nosos de todo ficarão seguros e contentes crendo não
tornariam mais pois havião quatro annos que já a cousa corria de tal maneira
que se tornarião sempre desbaratados ou de vazio, e asim se tem sem falta que
faltando os Franceses se entregarão os Pitiguares pois não tem nenhum remedio
e em toda a parte amiudo eram salteados ou se pasariam todos alem do Rio
Grande como já muitos tinhão feito que he o que nos arma e com a certeza das
náos Francesas serem hidas despedio a gente toda o Ouvidor Geral ficando
somente com os seus officiaes e Pedro do Albuquerque, e Francisco Pereira que
ainda estava mao das feridas. |
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Como despedida a gente o
Ouvidor Geral fez o forte de São Sebastião Capitulo ultimo Despedida a gente no fim do mes
de Janeiro de oitenta e sete se foi o Ouvidor Geral ao Rio Tiboré duas legoas
acima da cidade ao longo do Parahiba fazer um forte para o engenho do Açúcar
del Rei que elle lá tinha começado e para defender a Aldea do asento de pasar
e mais fronteiras com o qual se segurava tudo e se povoaria a varzea do
Parahiba e asim o ordenou e fez muito em breve e ficava o forte por causa do
engenho porque este foi o estilo do Brasil hir asim ganhando a terra aos
inimigos a quem o forte mais vizinho ficava em padastro e os nosos povoadores
e moradores por valhacouto que asim se vão estendendo seguros e agasalhavam
mais a sua vontade: pellas quaes rezões se começou este forte e casa de
engenho del Rei noso Senhor com tanto fervor de trabalho do gentio que todos
andavam na obra aos dias esmorecidos sobre o Ouvidor Geral por haver vindo
nova do Reino que vinha quem lhe sucedese ao que o noso gentio não tinha
paciencia e chorando diziam que não queriam outro Ouvidor mas nem isto nem as
roins novas que no Reino delle corriam mandadas de ca por seus inimigos tudo
de enveja lhe estrovava deixar de trabalhar e continuar na obra com que a
fizera para si e seus filhos e asim se acabou este forte que por asentar
fazel-o dia de São Sebastião vindo da serra de caminho lhe puseram o seu nome
que se chama hoje o forte de São Sebastião fose de cem palmos de vão de muito
groças ripas muito juntas e forradas de entulho de sinco palmos de largo e de
altura de nove onde pode pelejar a gente com muro de fora que he mais de
vinte e dous em alto de taipa dobrada de mão muito forte e boa, e do alto vem
o teto e telhado cobrindo o andaime e cazas que se fizeram a roda para
gasalhado da gente muito boas com duas grandes guritas em revés sobradadas
com sua artilharia a qual o Ouvidor Geral alem da del Rei juntou quatro casas
caens de sagres que haviam tomado aos Franceses, com o que e com lhe ficar um
portigo dentro da rede do asento de pasar cuja Aldea cercada e forte também
ali sitiou ficou tudo muito seguro por a nosa artilharia varejar duas partes
da cerca do gentio e feita também uha torra no meio do forte com grandes
portas para o Tibere com grandes ferrolhos e cadeados e abertos os caminhos e
tudo acabado como se Martim Leitão Ouvidor Geral ouvera ali de viver toda a
sua vida se partio na segunda semana de Fevreiro para Pernambuco já achando
de não sei quantas febres que com seu fervor em saudavel espirito havia
pasado em pe e chegando a casa se não levantou mas de uha cama os tres mezes
seguintes e não foi muito com tantas calmas, chuvas, vigias, trabalhos e
guerras e sobre iso em lugar de descansar se pos a travalhar mais que
jornaleiro e as roins agoas do Copaoba que aos que levarão vinho que elle não
bebe, empecerão e não se pousar em nada porque elle he muito de não dizer e
de fazer senão senhor vamos e façamos e asim lhe fez duas Deus merce como no
mais pasar somente com maleitas, o pelo que vi e sei digo que mais lhe sinto
a ma praga do Rei no entanto e tão bons serviços que todos os trabalhos de
ca, porque ja hoje importa de renda a el Rei cada anno o Parahiba quarenta
mil cruzados so do contrato do pao do Brasil e asim lhe houve dizer muitas
vezes que os trabalhos pelo serviço de Deus e del Rei eram seus verdadeiros
gostos maz que os maos galardões e ingratidões secavam os apos não sera muito
acontecer isto asim pois que neste Reino o hospital he o verdadeiro registo
dos homens de merecimento e mais deste que sempre foi tão envejado, e com
isto acabarei aqui as guerras do Parahiba com o seu dono e praza a Deus daqui
em diante suceda asim o mais asim ao conquistador como ao Parahiba que já
hoje tem sincoenta moradores casados Potiguares e outros tantos solteiros
postos todos lá a custa de Martim Leitão como também o forão os fortes que
fez porque em tudo isto se não gastou hum rial da fazenda de sua Magestade
como claramente se pode ver e consta dos livros d'Alfandega de Pernambuco
segundo lhe ouvi muitas vezes dizer, e o sei, pelo que podemos sem falta
afirmar que Martim Leitão deixou a Capitania do Parahiba conquistada com
fortaleza e goarnição e acompanhada e povoada de tanto numero de gentio como
para ella desceu que o Ouvidor Geral souve grangear e adquirir e conservar
com o que fica com mais gentio, e asim mais segura que todas as Capitanias do
Brasil porque o verdadeiro sangue e sustança de se povoar e sustentar o
Brasil he com o mesmo gentio da terra ganhando por amizade que sem elle não
nos valeremos nunca contra os outros e mais na Capitania no Parahiba situada
entre os Pitiguares que he o maior e mais guerreiro e pratico gentio do Brasil
tanto que so os Pitiguares são muito mais que todo o gentio que há do
Parahiba a São vicente, e asim mui inteiros e unidos e conformes contra nós
pelo que aquella Capitania depende hoje e consiste na conservacão daquelle
noso gentio que ao redor della asentou e vive que sem falta he muito do
mestiço aos brancos e os ajuda muito em tudo fazendo-lhes suas casas e
mantimentos e finalmente servindo-os como captivos, agora faltando o Ouvidor
Geral Martim Leitão que tudo isto criou de novo e que elles tinhão por Pay
asim no Parahiba como em todo o Brasil temo lhe façam alguns agravos como já
vimos Tenho acabado e cumprido com o
preceito da obediencia. Vosa Paternidade me perdoe não lhe dar aqui contas
das curiosidades desta terra dos animais muitos e diversos e tão diferentes
dos da Europa como o são as pacas que respondem as marrons do reino, tutus,
conforte cazca por sima com que se cobre todos e tem a carne singular como do
coelho a que os Portugueses chamam cavalleiros armados nem dos bugios saguins
em especial os amarelos que somente há no Rio de Janeiro por morrerem com o
frio indo para Portugal nunca se la verão nem das diversas castas de
papagaios, toins, e araras grandes, antas, veados, tigris, pequenos e outros
mil sortes e varias especies de animaes nem dos muitos generos de cobra das
quais as tiboas são tamanhas que engolem um bezerro inteiro e se virão dellas
de noventa palmos de comprido. |
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